Ponto. Parábola.
Vou direto ao ponto, mas ao estilo Michele Bolsonaro no vídeo que abalou a política brasileira nos últimos dias, com críticas severas dela ao enteado Flávio Bolsonaro, pré-candidato a presidente da República do bolsonarismo e parte considerável da direita.
Papo reto por linhas tortas da linguagem decifrada. Direto, indiretamente.
Um fato, sozinho, não diz tudo.
Um fato nunca anda sozinho.
Um fato é só um fato no meio da multidão que o vê, lê, sente, cheira, absorve.
O espírito do fato fala muito mais um pouco.
Conteúdo e forma importam. E o alvo do tiro.
O cálculo da recepção da mensagem é necessário porque será decisivo.
O vídeo de Michele Bolsonaro não é o vídeo de Michele Bolsonaro.
É o caso: tem camadas sobre camadas.
Tem a simbologia que as imagens jeitosamente plantadas carregam.
O tom de voz. Os quadros na parede. Os objetos escolhidos para estarem ali, aparentemente naturais em cima da mesa. Aquela mão com aquele gesto. A roupa com frases salpicadas com gosto. A maquiagem.
Nada por acaso. Nada aleatório na intenção e no conceito. Como manda o figurino do marketing político.
Tudo fala. Diz uma coisa ampla, dizendo coisas pontuais.
E continua dizendo nas interpretações, nas leituras repetidas, convergentes, contraditórias. Reverberando como pedra atirada na superfície do lago quieto.
Michele quer se distanciar de Flávio Bolsonaro?
Quer derrotá-lo no PL e no bolsonarismo para ocupar seu lugar como candidata a presidente da República?
Quer se defender de misoginia e ataques baixos dos filhos de seu marido, Jair?
É Jair agindo pra tirar Flávio do jogo, antes que os recentes desgastes dele, como o do Banco Master, dilapidem a fortuna da sua aprovação popular?
Feminismo de direita? Contradição retórica ao discurso conservador e evangélico?
Autodestruição interna, no bolsonarismo raiz?
Não seria a mensagem só o balangar da mangueira?
Qual o recado, na essência?
O que ela aponta? O que seu marqueteiro busca?
E a esquerda, entrou na conversa fiada da direita, como inocente inútil pra Lula em confusão útil para Michele e os seus?
Michele é controlada ou controladora? Manipula ou é manipulada? Importa saber?
Está sozinha ou tem respaldo de adversários internos de Flávio, uns explícitos e não assumidos, como o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto?
Ela tem um plano? Lançamento de candidatura presidencial pela convulsão social?
As perguntas buscam respostas ou o objetivo é este mesmo: gerar questionamentos, dúvidas, criar incerteza?
Um furacão em busca de soluções, para abrir porteiras?
Para estas duas últimas perguntas a resposta é a substituição do ponto de interrogação por um ponto final.
Um ponto final que inicia outras sentenças, outras orações, mais ações, reações e precipitações nos bastidores e na superfície da face política nacional.
Michele produziu um fato novo de campanha e é o fato novo na campanha, independente do que vem depois das questões postas.
O efeito já retornou em causa própria e, por certo, em causa de um propósito eleitoral seu e de muitos. Qual ou quais, a se saber aos poucos. Quem? Veremos. Muitos são os nomeados, apesar de conhecidos.
Michele é a mensagem e é o veículo de comunicação.
Carrega os fins que justificam os meios. Leva no contexto, palavra seja dita, todo um Maquiavel de resultados.
Tudo é calculado nos mínimos detalhes por razão simples: nessa maquinações, o menor erro tende a ser fatal. O feitiço volta-se como bala de canhão.
No que é feito, há o cuidado necessário com a contenção dos possíveis danos, se ocorrerem. E há o trabalho árduo para manter tudo nas linhas traçadas.
Dar errado e dar certo é parte do show, mas ao menos o espetáculo precisa estar garantido e resultar em algum ponto positivo, ainda que em parte dando errado.
Michele Bolsonaro disse a que veio. Foi ouvida.
Como devido? Como esperado?
Vai dar certo? Já deu?
Não se fala de outra coisa.
Ser ou não ser é o nó, o pote de ouro no fim do arco.
A relatividade dos resultados faz o risco. Sem risco, sem resultados.
O passo concomitante de permeio é a equipe e o estafe cuidar, ajustar rota, corrigir tropeços.
Roda solta descendo a montanha, abre caminho mas também destrói na caminhada.
Michele disse tem peso político por ser a esposa do Jair, por ser líder de mulheres no PL, pelo respaldo partidário e político que a cerca. Dizer o contrário é subestimar a realidade.
Mesmo com os desgastes internos, reais e inevitáveis, especialmente quando se trata de uma mulher lutando por poder.
Tudo na política é mais difícil para as mulheres.
O fato, o dito e o não dito, o desdito, a narrativa faz parte do show. É o showbiz da política. Campanha é business.
O homem é personagem de si mesmo, e se constrói por narrativas. A política usa sem comiseração.
A lição do dia – dia escolhido a dedo de marqueteiro: dia de jogo da Seleção Brasileira pela Copa – é esta: estratégia e método não fazem eleição para amadores.
Michele Bolsonaro tem foco. Tem meta. E método. Tem chance.
De amadora, ela não tem nada. E tenho dito.
O jogo é esse. A Guerra não perdoa.
Wilder Morais, Ana Paula Rezende, Gustavo Gayer e cia ilimitada da direita bolsonarista em Goiás estão no meio do tiroteio.
Flávio está no meio deles. Contorcendo-se na retórica. Na dissolução da crise. Na contenção dos danos.
Seu método é: na impossibilidade de matar Michele, matar a reverberação na origem, custe o que custar. Antes que o efeito lhe cause a morte eleitoral.
Os adversários, aturdidos, tentam compreender o que há. Porque nada é o que parece – sempre assim.
E antes que a mente do eleitor se desparafuse, vale o alerta da beira dos abismos.
Todo fato é maior que a realidade toda. A realidade é o fato e a vida.
Como Michele fez, eu disse por linhas aparentemente tortuosas, muita coisa direta, subliminar, para ouvidos atentos e à revelia de qualquer outro entendimento que não seja o que define a coreografia das campanhas.
Usei e abusei dos recursos à mão. Entendeu?
O caos da linguagem me favorece. O de Michele, quem sabe é Deus. E olhe lá.
Literal é para os fracos. Parábola do senhor. E da senhora.
