Vamos conversar?
Uma verdade sobre o prefeito Sandro Mabel é que ele é um prefeito presente.
A sensação é de que ele está em todo lugar de Goiânia, o tempo todo.
Isso pode ser sinônimo de alguém que trabalha e que se importa? Pode.
É uma marca involuntária do seu jeito de ser político. E de estar prefeito.
Presença marcante ser positiva ou negativa não é uma mera questão de política de comunicação.
É um posicionamento pessoal e profissional (político) que depende muito mais do Mabel prefeito do que da equipe que comunica o prefeito Mabel.
E entramos no labirinto da construção da imagem pública.
Só se comunica bem o que anda bem. Inventar não adianta.
Daí a verdade como base de tudo. Com verdade, chega-se à luz. Com meias verdades e mentiras, a vida pública andará sempre à meia-luz, por caminho meio-escuro.
A queda de energia vem, a conta chega, o legado (possível ou real) se apaga.
Se a gestão vai bem, mas o gestor vai mal, na visão da população, o futuro pisca. Sinal de alerta, no mínimo.
Um gestor errático, que produz pauta negativa em larga escala, é uma placa de perigo. Não há santo que dê jeito.
Os transtornos passam, os benefícios ficam?
Sim, desde que o cidadão eleitor não leia esse passar com outro sentido. Com o desejo de que o gestor passe logo desta para pior: o fim do mandato, a derrota.
Em avenida aberta no modo “direita livre” para a pauta negativa, nenhuma comunicação conseguirá mostrar a gestão como ela é.
A gestão que emergirá na cabeça da população será a que ele sente nos olhos e no peito. A de um prefeito errático e acelerado na contramão de seus interesses.
Essa gestão é candidatíssima a ser reprovada, derrotada pela má gestão do comportamento do gestor em campo, embora seja até louvável no conjunto da obra realizada pela gestão.
Mais difícil é prefeito concordar com isso. Entender que ele é seu maior problema.
Compreender que gestão boa, porém mal avaliada, tem mais a ver com a política tocada por seu gabinete do que com a política da pasta a ele subordinada, que cuida das relações com a imprensa e com a sua propaganda.
Público X privado
E esta é uma das diferenças que costumam separar o gestor público do gestor da iniciativa privada.
O da iniciativa privada, manda e desmanda. O negócio é seu. Ele faz o que bem entende. Todos prestam contas a ele.
O gestor da vida pública é mandatário, não é proprietário. Está diariamente a ponto de ser mandado embora pelo voto popular ou no voto por impeachment. Presta contas ao eleitor.
A natureza da gestão conta. Quando é para o povo, o que importa às pessoas vem antes. E elas sabem disso.
O povo sabe o poder que tem e o exerce quando bem entende necessário.
Na iniciativa privada, o empregado é o alvo de demissão. Ou o patrão é servido nos seus interesses, ou rua.
Na pública, o povo demite o prefeito que não se limita à sua pertinência no cargo. Ele não é empregador efetivo: é servidor temporário.
Sandro Mabel vem brigando para fazer uma gestão que marque época.
Tem no currículo o carimbo de bom gestor privado. Na gestão pública, a marca que construiu até aqui, porém, é outra: a de brigão.
Mabel é um prefeito que briga com a população. O tempo todo, e em todo lugar que vai.
Não deveria brigar pela população?
Mas ele briga é pela população, dirão uns. Certo. Só que não é o que parece.
Não é o que aparece. Não é o que ele comunica com o corpo e a alma saindo pela voz e os vídeos e posts.
O alvo recorrente de suas reações em público não é a obra ou o benefício atendido; é o servidor servindo ou o cidadão mal servido.
A atenção está direcionada à frieza das coisas, e não ao calor do resultado dessas coisas na vida das pessoas.
Tapa na cara
Mabel atira ‘verdades’ nos olhos dos cidadãos para matar. Em vez de seduzir com o olhar, ele fuzila com sua veemência, uma espécie de carimbo de qualidade muito particular.
Veemência é uma bala perdida que carrega muito sentimento. Amor. Pode ser. Mas também raiva, ironia sarcástica, desprezo.
Para os mais humildes, isso soa como coisa de gente rica, do tipo que cuida mais do centro e dos bairros nobres do que da periferia.
As pesquisas qualitativas apontam isso, nas entrelinhas. E para o valor de um prefeito firme e forte, mas educado no trato.
E Mabel posta muito nas redes sociais. Quer aparecer. Todos veem. Sinal dos tempos modernos. Bem aproveitado, o recurso é útil e agradável a todos. Necessário, como serviço ou como veículo de construção do poder.
Agora, aparecer às custas do servidor e da população?
Esse viés é autodestrutivo para a imagem. É o limiar a não ser ultrapassado.
Repare como Mabel parece ter prazer em comentar e responder quem o critica.
Por que? Penso que nem um marqueteiro psicanalista explica (brincadeira, tá?).
Briga de rua
Outro dia ele entrou numa polêmica com o vice-presidente da OAB-GO, Thales Jaime, das mais engraçadas. Engraçada pra gente. Quem não gosta de uma boa treta?
Jaime o criticou do nada, amável rebateu nos comentários, levou uma parada em seguida, estrebuchou, Thales surfou.
Imagina. Um prefeito entrar em briga de rua no Instagram confrontando prestação de contas da gestão de uma Capital com a de um clube de gente rica e privilegiada. Olha o tamanho disso como comunicação miúda.
Pior. Debater com um advogado competente. Um tribuno de reconhecida proeminência. E criminalista.
Tantas emoções.
Mabel não participou de um debate. Caiu como lebre em uma armadilha retórica desnecessária.
Deu carne fresca ao inimigo, aos comentários contratados e a quem já implicou com ele.
Um combo de desgastes sem igual. Mas engraçado. Trágico para sua comunicação, tenho certeza. Fazer o quê? Ele ouve? Se não escuta a população, vai escutar sua equipe?
Este o ponto: Mabel não é de ouvir, é de falar. E fala algo, com veemência. (Estão lembrados?)
Uma gestão que caminha de crise em crise causa tumulto interno e externo. Tumulto entre auxiliares e assessores, e na percepção dos cidadãos.
Um prefeito presente, mas tumultuando tudo, o tempo todo, em todo lugar. A verdade que é passada como mensagem.
Ou: uma gestão que não passa; que custa a passar. Que é um transtorno, invisíveis em seus benefícios.
Essa a sensação. Sensação não é necessariamente percepção positiva.
O melhor do pior
Mabel busca fazer o “seu melhor”. Suas intenções são boas.
Dois argumentos com sustentação na realidade. Tudo aponta para isso.
Milionário, vida construída na política. O que Mabel poderia almejar senão um lugar de honra e destaque na História de Goiânia, ao lado de Pedro Ludovico, o criador, de Iris Rezende, o grande realizador, e de tantos outros nomes… marcantes?
Mabel corre. O tempo escorre.
Não há fato consumado. Talvez não seja caso terminal de imagem cristalizada. Talvez.
Mabel é o problema de Mabel. Mabel é a salvação de Mabel. Sua política, sua comunicação.
No espelho da poça d’água acumulada no asfalto quebrado está fixado o seu bem e o seu mal. Mabel publica Mabel e a gente vê.
Conversa longa, né. Falei demais? Você é um bom papo. Me deixei levar.
