O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, contestou a legitimidade das sobretaxas propostas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros. O movimento ocorreu durante reunião em Paris, na quinta-feira, 4, com o representante comercial americano, Jamieson Greer. A ação tenta conter o impacto nas exportações e no ambiente de negócios do país.
A reação da diplomacia surge após o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) sugerir uma alíquota de 25% sobre mercadorias brasileiras. Washington alega práticas “irrazoáveis” em áreas estratégicas como o Pix, mercado de etanol e proteção de propriedade intelectual. A publicação do relatório surpreendeu o governo brasileiro, pois ocorreu antes do prazo acordado entre os presidentes de ambas as nações.
“Demos todas as informações necessárias. O que nós esperamos é que isso tudo seja levado em conta e que fique comprovado que não há por que sermos objeto de tarifas, porque todos os argumentos apresentados nós provamos que não são legítimos”, afirmou Vieira.
A ofensiva de Washington põe à prova o capital político do governo federal no cenário externo. Ao apresentar contra-argumentos técnicos, o Brasil busca desarmar a narrativa americana de concorrência desleal. Para evitar o isolamento e diluir a pressão, Vieira aproveitou o encontro da OCDE para acelerar a articulação com outros parceiros estratégicos, como os blocos da União Europeia, Coreia do Sul e Canadá.
Caso a taxação se confirme, o setor produtivo nacional enfrentará forte perda de competitividade no mercado norte-americano. Segundo dados oficiais do sistema Comex Stat, os Estados Unidos figuram como um destino relevante para Goiás, mas a pauta de exportação do estado possui uma configuração peculiar se comparada ao perfil estritamente manufaturado de estados como São Paulo ou Ceará.
- Carne Bovina (cerca de 13% das vendas aos EUA): O produto goiano, com forte peso em frigoríficos locais, está listado de forma explícita entre as exceções do governo americano devido à necessidade de abastecimento do mercado interno deles.
- Minerais e Ouro: Itens de forte extração no interior do estado (como em Barro Alto, Ouvidor e Crixás) também constam no rol de exclusões de Washington sob a rubrica de “minerais estratégicos”.
- Complexo Soja: A soja e seus derivados, que lideram a pauta de exportações gerais de Goiás para o mundo, não integram a lista de bens de transformação afetados (focada em manufaturados).
Se as grandes commodities operam com salvo-conduto, a manifestação da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) por meio de Nota Técnica emitida neste dia 3 de junho serve para antecipar impactos concentrados e indiretos em dois pontos centrais :
- Indústria de transformação local: Segmentos específicos sediados em Goiás com maior exposição direta ao mercado norte-americano, como as indústrias de alimentos e bebidas, metalurgia, couros e derivados e empresas vinculadas à agroindústria, perdem competitividade imediata caso as taxas cumulativas cheguem a 37,5%.
- Efeito em cadeia nacional: Como os Estados Unidos são o maior comprador de produtos industrializados do Brasil, a ameaça tarifária sobre 21% de todas as exportações brasileiras para os EUA estimada pelo MDIC gera um efeito cascata que pode desacelerar fornecedores goianos de insumos e peças.
Certamente haverá uma pressão seletiva. O movimento econômico divide o setor produtivo goiano: enquanto o agronegócio e a mineração respiram aliviados com as salvaguardas americanas, as indústrias de bens de consumo duráveis e intermediários enfrentam um cenário de forte imprevisibilidade até a decisão final, marcada para 15 de julho.
O ponto central de atenção nos próximos dias é a avaliação, por parte do governo americano, dos dados de defesa apresentados pelo Brasil. Essa resposta definirá se a Casa Branca recua ou se formaliza a imposição das barreiras tarifárias.
