A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Municipal de Goiânia aprovou o Projeto de Lei de autoria do vereador Lucas Kitão (Mobiliza) que institui o Museu e o Memorial Césio-137. O objetivo declarado da proposta é preservar a memória dos afetados, reconhecer o trabalho dos profissionais envolvidos e promover a conscientização sobre os impactos do acidente radiológico ocorrido na capital em setembro de 1987. A matéria autoriza o Executivo Municipal a celebrar convênios e parcerias públicas e privadas para viabilizar a implantação, manutenção e gestão do espaço.
Apesar do aceno institucional, a criação de mais um marco legal divide opiniões entre o otimismo político e a visão crítica de quem acompanha o apagamento histórico da tragédia no cotidiano da cidade.
Leis vs. ações práticas
Para Jorge Cordeiro, antropólogo e pesquisador de imagens e memória, a aprovação de projetos governamentais e datas simbólicas corre o risco de se tornar apenas uma resposta burocrática sem efeito real para os sobreviventes. Ele argumenta que a estrutura jurídica frequentemente se vale de termos técnicos e legislações que não se traduzem em transformações palpáveis na vida das populações marginalizadas.
Ele viaja cerca de 120 mil quilômetros anualmente realizando pesquisas de campo por todo o Brasil, focando em políticas públicas e memória imaterial. Esse trabalho pode ser acompanhado em seu Instagram @antropologiaurbana e TikTok

“Na antropologia, dizemos que as leis muitas vezes operam no plano da legitimidade formal (ou ‘direito estatal’), mas falham em se traduzir em práticas cotidianas ou em gerar agência social. Por outro lado, monumentos e museus funcionam como dispositivos de memória e cultura material, que materializam o trauma e provocam respostas afetivas e rituais na comunidade”, explica Jorge.
De acordo com o pesquisador, o conceito que define a gestão da memória do acidente na capital goiana é a “geografia dos ausentes” ou “geografia dos esquecidos”. Como exemplo prático desse abandono, ele aponta que as sepulturas das quatro vítimas fatais diretas no cemitério de Goiânia não possuem qualquer placa de identificação.
- Tradução do esquecimento: O apagamento na morte funciona como a tradução final de uma vida inteira de invisibilidade institucional.
- Túmulos anônimos: Quem não conhece a história passa pelos blocos de concreto no Cemitério Parque e não sabe quem está ali, evidenciando uma política que silencia o sofrimento periférico.
- Marcos que viram lixo: Áreas de relevância histórica, como o local onde ficava a antiga casa de Dona Lourdes, acabaram abandonadas pelo poder público e transformadas em lixões urbanos ocupados por famílias vulneráveis.
O fenômeno da Netflix e a omissão do estado
O recente ressurgimento do Césio-137 no debate público foi impulsionado pela produção “Emergência Radioativa” da Netflix. Cordeiro reconhece que produções desse porte têm relevância para reacender a discussão, mas faz duras críticas à abordagem mercadológica que ignora os verdadeiros protagonistas da história.
O antropólogo revela um bastidor contundente: a equipe de produção da série sequer conversou com as vítimas diretas da radiação.
“Em nossos diálogos com pessoas atingidas pelo acidente radioativo, surge uma lacuna profunda, acompanhada por um sentimento de grande angústia coletiva. Essa inquietação decorre do fato de a Netflix ter produzido uma minissérie sem conceder escuta àqueles que, ainda hoje, vivenciam o trauma e suas sequelas. A mensagem implícita nessa produção mercadológica é sintomática: prioriza-se a visibilidade do espetáculo e do lucro em detrimento da condição humana, fragmentada pela dor. O que se testemunha, portanto, é a reiteração de um apagamento histórico institucionalizado, onde o capital se sobrepõe à memória e à dignidade das vítimas.”
Cordeiro pondera que a responsabilidade principal não é da multinacional, mas sim da própria cidade de Goiânia e do Estado, que historicamente silenciaram o episódio. Se o poder público tivesse criado um memorial ativo, um museu e indenizado as vítimas adequadamente no passado, a narrativa externa seria sobre o acolhimento da sociedade, e não sobre o aproveitamento de uma lacuna de silêncio.
Da burocracia à realidade dos sobreviventes ao césio-137
Enquanto o projeto de lei tramita na Câmara Municipal e autoriza parcerias para a construção do museu, a realidade dos sobreviventes continua marcada pelo estigma e pela precariedade, intocada pelos bilhões do entretenimento ou pelas promessas institucionais. O pesquisador cita exemplos dramáticos de personagens centrais da tragédia:
- Wagner Mota: O catador que encontrou originalmente a cápsula contendo o Césio teve a perna amputada, tornou-se alcoólatra e hoje mora dentro de uma Kombi, vivendo marginalizado e sem emprego.
- Lourdes das Neves (Dona Lourdes): Mãe de Leide das Neves, tem 74 anos, convive com um glaucoma severo e recebe uma assistência financeira historicamente defasada, recentemente reajustada. Ela ainda precisa frequentar manicures às escondidas para evitar que os estabelecimentos sejam hostilizados ou boicotados pela vizinhança.
- Sr. Dionísio: Catador de recicláveis até hoje, teve seu carro de trabalho queimado e não possui condições financeiras para adquirir outro veículo.
- Marcelo: Presidente da Associação de Vítimas do Césio-137, era um voluntário que entrou no Estádio Olímpico para cozinhar para os isolados e contraiu sequelas irreparáveis na saúde (problemas no pâncreas, pulmão e pressão), lutando hoje sem recursos até para abastecer o carro usado no auxílio a outros pacientes.
A aprovação do projeto do vereador Lucas Kitão traz uma oportunidade para Goiânia. Resta saber se o futuro Memorial e Museu do Césio-137 funcionará como um instrumento real de reparação, dignidade e educação, ou se será apenas mais uma peça burocrática para mascarar a persistente exclusão dos cidadãos que a capital preferiu esquecer.
*Edição: Laila Melo
