Um brilho azul intenso fascinou moradores do Setor Aeroporto em setembro de 1987 e se tornou o marco inicial do maior acidente radiológico do mundo ocorrido fora de instalações nucleares. Hoje, passadas quase quatro décadas, a tragédia do Césio-137 em Goiânia voltou ao centro do debate público, impulsionada por novas produções audiovisuais e por recentes atualizações nas políticas de assistência às vítimas.
O rastro da contaminação
A tragédia começou em 13 de setembro de 1987, quando dois catadores de material reciclável encontraram um aparelho de radioterapia abandonado nas ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), localizado no Setor Central. Ao desmontarem a peça em um ferro-velho no Setor Aeroporto, romperam uma cápsula contendo 19,26 gramas de cloreto de césio-137.
O pó, que emitia uma luminescência azulada no escuro, foi exibido como uma “pedra mágica” por Devair Ferreira, dono do ferro-velho, atraindo vizinhos e familiares. Em poucos dias, o rastro de radiação se espalhou por roupas, alimentos e mãos, contaminando centenas de pessoas.

As vítimas
Oficialmente, o acidente causou quatro mortes imediatas nas semanas seguintes à exposição:

- Leide das Neves Ferreira (6 anos): O rosto mais trágico do acidente. Encantada pelo brilho azul do Césio-137, a menina brincou com o pó antes de ingerir partículas acidentalmente enquanto comia um ovo cozido. Devido aos altos níveis de radiação — cerca de 6,0 Gy medidos no corpo da criança —, ela e a tia foram sepultadas em caixões de chumbo revestidos de concreto, pesando cerca de 700 quilos cada, sob fortes protestos na época.

- Maria Gabriela Ferreira (37 anos): Esposa de Devair, a primeira a suspeitar que o mal-estar generalizado na vizinhança estava ligado ao “pó brilhante”. Maria é tratada como heroína, dado que ela levou o Césio dentro de um saco para a vigilância sanitária no dia 28 de setembro. No dia seguinte, 29 de setembro, o físico Walter Mendes Ferreira identificou oficialmente o acidente ao confirmar os altos índices de radiação e ordenar o isolamento das áreas afetadas.
- Israel Batista dos Santos (22 anos) e Admilson Alves de Souza (18 anos): Funcionários do ferro-velho que manusearam a fonte radioativa.
Nos anos seguintes, outros óbitos foram registrados e relacionados a complicações tardias, como câncer e depressão severa, embora o nexo causal direto seja frequentemente objeto de disputa nos tribunais.

Sobreviventes

Entre os que resistiram ao desastre estão Odesson Alves Ferreira e Roberto Santos. O primeiro, irmão de Devair, transformou a contaminação em suas mãos em combustível para liderar o movimento pelas vítimas. Roberto, por sua vez, foi um dos catadores que manuseou a cápsula original, sofrendo até hoje os impactos físicos daquele contato.

O cenário em 2026: assistência e pensões
Atualmente, a assistência aos afetados é centralizada no C.A.R.A. (Centro de Assistência aos Radioacidentados). Mais de 1.100 pessoas ainda recebem acompanhamento médico e psicológico periódico.
Neste mês de março de 2026, um novo capítulo sobre o amparo financeiro foi aberto. O Governo de Goiás encaminhou à Assembleia Legislativa (Alego) um projeto de lei para reajustar em 69,92% o valor das pensões especiais.
- Para as vítimas do “Grupo 1” (exposição superior a 100 RADs), o valor proposto sobe para R$ 3.242.
- Para os demais grupos, o benefício deve chegar a R$ 1.621.
O objetivo é corrigir distorções acumuladas ao longo dos anos e restringir o benefício a quem comprovar as sequelas da radiação. A medida também reconhece a permanência do preconceito contra as vítimas, embora ele tenha se diminuído com o tempo.
O depósito de Abadia de Goiás

As 6 mil toneladas de rejeitos radioativos — que incluem de detritos de construção a objetos pessoais — permanecem lacradas em recipientes de concreto em Abadia de Goiás, na região metropolitana. O local abriga o Centro Regional de Ciências Nucleares e funciona como um museu e centro de monitoramento. Especialistas garantem que a segurança é total, mas a vigilância continuará por pelo menos mais 260 anos, tempo necessário para que a radioatividade do material decaia a níveis seguros.
Cultura e memória
O interesse pelo caso foi renovado em 2026 com o lançamento da minissérie “Emergência Radioativa”, que retrata os esforços de contenção e o drama humano dos afetados. Para os sobreviventes e familiares, manter a história viva é a única forma de evitar que o descaso com materiais perigosos produza novas “pedras brilhantes” no futuro. Curiosamente, a série foi gravada em São Paulo, o que levantou debates sobre apropriação da história goiana pelo Eixo Rio-São Paulo.






