A liberdade de imprensa vive seu pior momento em 25 anos. O novo Índice Mundial de Liberdade de Imprensa da Repórteres Sem Fronteiras mostra que, pela primeira vez na série histórica, mais da metade dos 180 países avaliados (52,2%) está em situação considerada “difícil” ou “muito grave” para o exercício do jornalismo. Em 2002, esse grupo representava apenas 13,7%. O dado é mais que estatístico: é um retrato da deterioração democrática no mundo.
O relatório aponta que a queda não se limita a ditaduras clássicas. Ela avança também sobre democracias formais, onde governos, tribunais, grupos econômicos e plataformas digitais aprenderam formas mais sofisticadas de sufocar a imprensa. Nem sempre é preciso fechar um jornal. Às vezes basta intimidar, processar, cortar publicidade, desacreditar o repórter, restringir acesso à informação ou transformar o jornalista em inimigo público.
O ponto mais alarmante é o uso crescente de leis de segurança nacional, combate ao terrorismo, extremismo ou “desinformação” como instrumentos de controle. Segundo a RSF, o indicador legal foi o que mais piorou em 2026, com deterioração em 110 dos 180 países avaliados. A criminalização do jornalismo virou método político. O poder já não se contenta em contestar a notícia; quer punir quem a revela.
Nesse cenário sombrio, o Brasil aparece como uma exceção relativa nas Américas. O país subiu para a 52ª posição e, pela primeira vez em 25 anos, ficou à frente dos Estados Unidos, que caíram para o 64º lugar. A melhora brasileira é expressiva: foram 58 posições recuperadas desde 2022. A RSF atribui parte desse avanço à mudança do ambiente político e institucional em relação à imprensa.
Mas convém evitar o triunfalismo. Estar melhor que antes não significa estar bem. O Brasil ainda convive com agressões a jornalistas, campanhas de difamação, pressões locais, dependência econômica de veículos pequenos, judicialização abusiva e violência contra profissionais de imprensa, sobretudo fora dos grandes centros. A melhora no ranking é importante, mas não elimina as fragilidades de um país onde a notícia ainda incomoda demais os poderosos.
O caso dos Estados Unidos é simbólico. A nação que durante décadas se apresentou como vitrine da liberdade de expressão agora desce no ranking sob forte pressão política, ataques à imprensa e hostilidade institucional. A
queda americana mostra que a liberdade de imprensa não morre apenas em regimes fechados. Ela também adoece quando líderes eleitos passam a tratar jornalistas como adversários, traidores ou conspiradores.
No fundo, a crise da imprensa é a crise da própria democracia. Onde o jornalismo perde proteção, a sociedade perde visão. Sem uma imprensa livre, o cidadão enxerga menos, fiscaliza menos, reage menos e, quando o poder
deixa de ser vigiado, ele cresce no escuro.
A conclusão é simples e dura: a liberdade de imprensa não é um privilégio dos jornalistas. É um direito da sociedade. Defender o jornalismo livre é defender o direito de saber e nenhum povo permanece livre por muito tempo,
quando começa a ter medo da verdade.
Luiz Carlos Bordoni é jornalista, radialista, cientista político, bacharel em Direito, pós-graduado em Direito Constitucional e titular da Cadeira 33 da Academia Goianiense de Letras.
