Marcela Moreira passou anos achando que acordar exausta era o normal. Cristine Oittica emendava jornadas de 14 horas diárias sem que ninguém considerasse aquilo um problema. As duas engrossam a estatística de um país onde os afastamentos por burnout dispararam 823% entre 2021 e 2025; de 823 para 7.595 benefícios concedidos pela Previdência, segundo o Ministério da Previdência Social.
O MPT contabilizou 1.022 denúncias de saúde mental no trabalho no ano passado, ante 190 quatro anos antes. Mais de meio milhão de licenças por transtornos mentais foram concedidas em 2025, repetindo e ampliando o recorde de 2024.
Para a pedagoga Cristine, 36 anos, com mais de 15 anos de atuação na educação pública, a deterioração começou em 2022, quando ingressou como analista educacional em uma grande fundação ligada ao sistema financeiro. A organização a manteve à margem de projetos estruturantes e a direcionou a tarefas operacionais, apesar de sua experiência e formação.
“Eu via colegas de mesmo cargo conquistando projetos, crescendo e recebendo promoções. Eu não tinha projeto, não tinha estação, não tinha lugar”, conta.
A cada pedido de retorno sobre o desempenho, recebia respostas vagas, e passou por cinco trocas de gestão sem um plano de carreira. “Chegou um momento em que pensei: o problema sou eu. Comecei a trabalhar cada vez mais para provar meu valor.” A rotina de 12, 14 horas diárias, incluindo almoços, jantares e viagens ocupados pelo trabalho, trouxe insônia, crises de ansiedade, exaustão e isolamento. Acionou os canais internos da empresa para relatar assédio e discriminação, mas a instituição classificou as denúncias como inconclusivas. Após sucessivos afastamentos, o diagnóstico apontou transtorno de ansiedade generalizada; não burnout. Retornou de férias e a empresa a demitiu no mesmo dia. “A mensagem que ficou é que tudo o que eu fiz não foi suficiente. Isso desmonta a pessoa”, desabafa.
Marcela, física com carreira em dados, trilhou caminho parecido em um banco. O estresse crônico se intensificou ao assumir uma área de demandas urgentes e metas que oscilavam entre o impossível e o meramente desgastante. “Aquilo se normalizara a tal ponto que eu achava que era o meu estado padrão”, afirma. A retirada gradual de um antidepressivo escancarou os sintomas, e a orientação médica de se afastar veio seguida de uma demissão sem justa causa. “A sensação de alívio físico foi imediata. Era como se meu corpo soubesse que a pressão tinha acabado”, relembra.
O psiquiatra Arthur Danila, do Hospital das Clínicas da USP, explica que o cenário resulta de três movimentos simultâneos: a piora objetiva das condições psicossociais, o maior reconhecimento social do problema e a mudança na forma de registro.
“O trabalho ficou mais acelerado, mais conectado, mais monitorado e mais competitivo. Ao mesmo tempo, passamos a reconhecer melhor que parte do sofrimento mental tem relação direta com o ambiente ocupacional”, diz.
Ainda assim, ele estima que houve subnotificação no passado, muitos casos entravam como depressão ou ansiedade, sem vínculo formal com o trabalho. “Havia vergonha em associar adoecimento mental ao trabalho”, afirma.
Em 2022, a OMS incluiu o burnout na CID-11, definindo-o como fenômeno ocupacional caracterizado por exaustão, distanciamento mental e redução da eficácia profissional. A medida ampliou a visibilidade, mas o enquadramento jurídico ainda depende da prova do nexo causal. A advogada Nathalia Sequeira Coelho detalha que, quando se comprova a relação com o trabalho, o burnout pode se equiparar a acidente de trabalho; o que assegura estabilidade de 12 meses após o auxílio-doença acidentário e depósito de FGTS durante o afastamento. Sem esse reconhecimento, o benefício é comum e não garante tais direitos.
Diante da escalada de números, o governo atualizou a NR-1 para incluir a fiscalização de riscos psicossociais. A regra que inicialmente valeria em maio de 2025 foi adiada para este mês após pressão empresarial, e um novo adiamento está em discussão. O ministro Luiz Marinho afirmou que não pretende prorrogar outra vez, enquanto auditores fiscais e MPT defendem a manutenção do prazo de 26 de maio. Especialistas alertam que o crescimento dos afastamentos reforça a urgência de medidas preventivas.
