Falo demais de mim e isso me incomoda e desconfio que afasta leitores. Que cabotinismo é esse? Mas não há nada que eu conheça melhor do que eu mesmo, portanto isso é natural, penso, me lembrando que alguém disse isso e eu considerei uma verdade incontestável. Até agora.
Porque na prática não me conheço nada, embora talvez seja real que ainda assim me conheça melhor do que todos os outros que conheço e desconheço de convivência e leitura. Me ocorre, porém, que é exatamente o contrário que me faz falar e escrever tanto de mim: não me conhecer mais do que tudo e todos, e de um jeito que me provoca questões, curiosidades, vontades inesperadas e alimentadas por si mesmas, em um rodamoinho infinito – visto e havido que não paro de pensar.
Não sei nada de mim a não ser isto, que quero saber o tempo todo, e que é bom saber, e que é uma tortura saber mais e descobrir o quão pouco sei e o tanto pra saber que há. Sou inspiração e sou um abismo de interpretações. Digo abismo nos dois sentidos, o de queda para os infernos, e o de estrada para os céus. Vou lá saber em que direção estou?
Embrenho-me nessas elucubrações, nestes labirintos e me divirto. Sei que isso é porta de entrada para os manicômios, certo, mas eu me arrisco, me arrisco cada vez mais a me perder e compreendo que o risco é parte de mim ao ter claro que não saberia ser quem sou, não sendo este que sou correndo todos os riscos e todas as tomadas de decisões que podem a qualquer momento me levar à morte.
Uma ironia, já que a vida é essencialmente morrer. Como morrer, de uma perspectiva espiritual, para os crentes, aqueles de fé, morrer é vida: vida eterna, vida renascida, alma perpétua. Vejam que maluquice é a ideologia, a teoria, a mentira, a criação deslavada, a realidade, a imaginação destemperada, a farsa, o brilho das fadas, e como, tudo combinado – somado, subtraído, apagado -, é algo além ainda. Ou seria a base? Meu Deus! Meu Deus ou o seu?
Tenho propensão indefinível para cafés da manhã com ovos mexidos e inconscientes coletivos. Misturo o sol quente do cerrado com aquela brisa de dentro das matas fechadas, perto de umas nascentezinhas barulhentas de silenciozinhos borboletantes, brotantes, beija-flores verdejantes, me extasio de lembranças sem precisar lembrar de nada – tudo está quieto, de repente tudo fica revolvido no cheio do bule -, e aí eu me quedo na quietude de uma serena revoada de terra no descampado.
Meu sentimento é muito maior que tudo que penso e eis que penso então: onde começa e onde termina a minha respiração? Meu sentimento é o sentimento do mundo, ou só mais um pensamento? Na superfície ou profundo?
O ritmo é a história. Pensamento, incauto que seja, um pouso no ninho, voo infindo, um sonho indo e vindo, universo cristalino, um estalido, um sorriso lindo, um… Um, não. Fala. Palavra.
