O encontro nacional do Partido dos Trabalhadores, realizado em Brasília, expôs uma contradição difícil de ignorar. De um lado, o partido apresenta propostas voltadas ao fortalecimento da democracia no Brasil. De outro, permite que seu palco seja ocupado por uma faixa pedindo a volta de Nicolás Maduro.
E aqui está o ponto central: não se trata de uma divergência ideológica qualquer, mas de coerência. A comunidade internacional, inclusive países da América Latina e da Europa, questiona a legitimidade de processos eleitorais na Venezuela, apontando denúncias de fraude e concentração de poder . Ou seja, não é apenas um debate retórico, há um histórico concreto de erosão institucional.
Defender a democracia em casa e relativizar práticas autoritárias fora dela gera um ruído político evidente. A mensagem que passa é a de que a democracia vale como princípio, mas com exceções convenientes. A democracia, por definição, não pode ser seletiva.
Mais grave ainda é o simbolismo: ao invés de defender que o povo venezuelano decida livremente seu destino pelo voto, parte do partido parece optar por antecipar o resultado e escolher o lado. Isso remete a velhas práticas de tutela ideológica, típicas de regimes que se diziam populares, mas concentravam poder.
E aqui cabe um contraponto necessário: essa não é uma exclusividade da esquerda. Assim como há setores que flertam com autoritarismos à esquerda, também existem grupos à direita, inclusive no entorno do bolsonarismo, que demonstram desconforto com limites democráticos. O problema, portanto, não é a ideologia em si, mas a tentação do poder absoluto.
No fim das contas, isso não ajuda o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula construiu sua trajetória dialogando com diferentes setores e, muitas vezes, se posicionando de forma mais pragmática do que sua base. Sua força sempre foi maior que a do próprio partido, e talvez resida aí sua capacidade de sobrevivência política.
Mas episódios como esse cobram um preço: alimentam desconfiança, reforçam narrativas adversárias e colocam em dúvida o compromisso real com aquilo que se diz defender.
Democracia não é discurso. É prática, mesmo quando ela contraria nossas preferências.
