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Homens (não) sabem o que é misoginia?

Analise de como a misoginia é distorcida no debate público e nas redes sociais, em meio a desinformação e lucro digital.

misofinia mata | PortalGO
Crédito: Elineudo Meira @fotografia.75

Há algumas semanas, a aprovação unânime do Projeto de Lei 896/2020, que criminaliza a misoginia, levantou debates sobre o termo. Mas afinal, o que é misoginia? Segundo definição do Ministério das Mulheres, misoginia é o “sentimento de repulsa, ódio ou aversão às mulheres”. Na prática, o texto aprovado pelo Senado altera o PL nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, a fim de “incluir crimes motivados por misoginia (ódio ou aversão às mulheres) entre aqueles punidos por discriminação ou preconceito. Isso abrange injúrias e incitação ao ódio contra mulheres”.

A votação teve resultado claro, unânime, 67 votos a favor e nenhum contra. Ainda assim, muitos políticos e influenciadores vieram às redes sociais se manifestar em oposição à proposta. A alegação: a violação da “liberdade de expressão”.

Em vídeo publicado em redes sociais, o deputado Nikolas Ferreira (PL) argumenta que dar “Bom dia” a uma mulher seria motivo para uma pessoa ser presa. Em outro momento, na rede social X, ele compartilhou vídeo de uma discussão entre o apresentador Joelson Giordani e a professora Lourdes Melo (PCO-PI), em um debate nas eleições de 2022. Além das imagens, Nikolas acrescentou uma captura de tela do suposto PL que tipificaria formas de misoginia como “os subterfúgios, como interrupção constante da palavra, como forma de impedir a mulher de se pronunciar”. Na legenda, o deputado disse: “Se [o Projeto de Lei] for aprovado na Câmara, esse homem iria preso por misoginia. Que hospício”.

No entanto, essas livres interpretações sobre o que tipifica a misoginia constituem uma rede de manipulação e distorção de informações. O deputado, inclusive, precisou retirar o conteúdo publicado da plataforma X, uma vez que o trecho “os subterfúgios, como interrupção constante da palavra, como forma de impedir a mulher de se pronunciar”, não consta no texto atual.

Porém, muitos conteúdos, como os publicados por Nikolas Ferreira, ganharam grande repercussão entre conservadores e grupos redpill (esses homens que escolheram a “pílula vermelha” – sim, isso que você pensou, igual ao filme Matrix – para despertar para a realidade em que mulheres manipulam os homens), nas redes sociais. A maior parte dos indignados, claro, são homens. Mas não são a totalidade.

Algumas mulheres também se opuseram ao PL. Isso mostra um fenômeno complexo: ferramentas de proteção à mulher são vistas como ameaças. Medo da chamada ideologia de gênero? Ou do conservadorismo religioso em que o homem é tido como figura central? Receio de uma aproximação com a esquerda, ou mais especificamente, com o PT? (Mesmo que o PL tenha sido escrito pela senadora Ana Paula Lobato, do PSB).

Mas, para além disso, é preciso considerar que sim, a maior parte dos revoltosos ao PL da misoginia é de homens. Também é possível perceber uma onda de confusão, causada por conteúdos tendenciosos, sobre o que de fato era tratado. Assim, fica o questionamento: será que homens realmente não entendem o que é a misoginia, ou se utilizam da falsa ignorância para propagar comportamentos abusivos?

Veja, leitor, as duas coisas são totalmente possíveis. O termo misoginia não é novo. A primeira vez em que ele aparece é no dicionário de Oxford em 1656, porém é um conceito com raízes na Grécia Antiga. No entanto, ele também não é amplamente conhecido. Na verdade, houve uma popularização do termo nos últimos anos com os crescentes debates sobre violência de gênero.

“Quando se inventou a roda, a misoginia já estava dando quatro piruetas no ar”, Marisa Avigliano, jornalista, 2010

Por isso é totalmente compreensível que, de fato, exista uma confusão sobre o que significa essa palavra e o que é o PL 896/2020. E é justamente isso que me preocupa. Que pessoas que sabem o que significa a misoginia, e como o PL funcionaria, manipulem essas informações para espalhar o caos e o ódio.

Uma pesquisa desenvolvida pelo Observatório da Indústria da Desinformação e da Violência de Gênero em Plataformas Digitais mostra que essas pessoas, a grande maioria homens que falam ativamente nas redes sociais sobre o tema, não apenas entendem, mas também monetizam conteúdos misóginos. Segundo o relatório, foram mapeados mais de 76 mil vídeos com conteúdo misógino veiculados no YouTube no Brasil, que somam cerca de 4 bilhões de visualizações. Desses, 42% foram classificados como conteúdos de desprezo às mulheres e estímulo à insurgência masculina, com temas de superioridade masculina e subserviência feminina.

Entre as estratégias argumentativas utilizadas nesses canais estão: Culpabilização e relativização da violência contra a mulher; Inferiorização e submissão feminina; Antifeminismo e ataques aos direitos das mulheres. Além disso, 80% dos canais do YouTube apresentam alguma forma de monetização ativa. Ou seja, esses homens não apenas sabem o que é a misoginia – eles lucram com ela.

A violência contra a mulher é a “pandemia mais longa e mortal do mundo”, segundo António Guterres, da ONU. O Fórum Brasileiro da Segurança Pública registrou 2025 como o ano com o maior número de feminicídios notificados na última década. Mas como combater essa pandemia, se a cada tentativa de proteção às mulheres desses discursos de ódio – que se materializam em ações de ódio – vem uma onda de ainda mais violência e desinformação?

Bom, eu prefiro acreditar que a desinformação se combate com informação. Nesse caso, posso citar o trabalho que grupos e checadores como a Agência Lupa, e também de associações, coletivos e movimentos sociais como Levante Mulheres Vivas e Planeta Ella, fizeram ao utilizar seus perfis para desmentir os boatos acerca do PL. E eu defendo que, sim, em muitos casos, o didatismo é necessário para combater essa onda de violência. Mas, como se ensina quem não quer aprender? Até onde a informação alcança uma sociedade que usa a desinformação como arma? Para isso, leitor, não tenho resposta. Talvez esperança, mas às vezes, nem isso.

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