Os números mais recentes sobre feminicídio no Brasil revelam mais do que uma tragédia cotidiana. Mostram uma desigualdade estrutural profunda, persistente e, até aqui, insuficientemente enfrentada. Entre 2021 e 2024, as mulheres negras representaram de 62,6% a 68% das vítimas desse tipo de crime. Em outras palavras, são elas que mais morrem por serem mulheres.
O dado não pode ser analisado isoladamente. Ele dialoga diretamente com a história social brasileira, marcada por desigualdades raciais que atravessam gerações. A violência contra a mulher negra não é apenas uma questão de gênero. É também resultado direto de um processo histórico de exclusão, que envolve renda, acesso à educação, moradia e oportunidades.
Dez anos após a Lei do Feminicídio, o país avançou no reconhecimento jurídico do problema, mas ainda patina na sua solução prática. Nesse período, os casos cresceram 176%, atingindo principalmente a população negra. Enquanto há sinais de estabilização ou queda entre mulheres brancas, o aumento entre negras evidencia um recorte que não pode mais ser ignorado.
A dinâmica da violência também chama atenção. A maior parte dos feminicídios ocorre dentro de casa: 66,3% dos casos. O lar, que deveria ser espaço de proteção, se transforma no principal cenário do crime. E mais: 85% das mulheres negras vítimas de violência doméstica convivem com o agressor, o que evidencia o grau de dependência emocional, econômica ou social que dificulta a denúncia e a ruptura.
Esse contexto é agravado por fatores estruturais. Mulheres negras, em média, têm menor renda, menor escolaridade e vivem com mais frequência em condições habitacionais precárias. Essa combinação limita o acesso a redes de apoio e aumenta a exposição ao risco. Trata-se de uma vulnerabilidade acumulada.
Há ainda um problema adicional: a subnotificação. Especialistas alertam que mortes de mulheres negras podem não ser corretamente classificadas como feminicídio, o que distorce as estatísticas e invisibiliza parte da violência.
Quando o dado não aparece, a política pública também não chega.
O conceito de interseccionalidade ajuda a compreender esse cenário. A mulher negra não enfrenta apenas o machismo, enfrenta também o racismo. É uma dupla carga que, na prática, se traduz em maior risco de violência e menor proteção institucional.
Diante disso, o enfrentamento exige mais do que campanhas pontuais. É necessário um redesenho das políticas públicas, com foco específico em raça e gênero. Fortalecer a rede de proteção, ampliar casas de acolhimento, garantir acesso à justiça e investir em autonomia econômica são caminhos urgentes.
O feminicídio, quando observado sob esse recorte, deixa de ser apenas um crime individual e passa a ser um sintoma coletivo. Um retrato de um país que ainda não conseguiu proteger igualmente todas as suas mulheres.
