O debate sobre o uso de câmeras corporais por policiais voltou ao centro da discussão nacional e não por acaso. Dados recentes indicam que a adoção do equipamento reduziu em 63,7% a letalidade policial em dois anos. Ainda assim, episódios recentes mostram que o problema está longe de ser resolvido.
No Rio de Janeiro, a morte de um jovem empresário, atingido por 23 disparos ao retornar de uma festa com amigos, acendeu novo alerta sobre o uso excessivo da força. Em São Paulo, outro caso chocou o país: uma aspirante a policial, de apenas 21 anos, matou uma mulher mãe de cinco filhos por motivo considerado torpe. Em ambos os episódios, a presença de câmeras corporais foi determinante para esclarecer os fatos, identificar responsabilidades e dar transparência às ações.
A tecnologia, portanto, não impede o erro, mas dificulta o silêncio. E é justamente nesse ponto que o debate se torna mais sensível.
O pré-candidato à Presidência Ronaldo Caiado tem posição contrária ao uso das câmeras. Para ele, o equipamento constrange a atuação policial. Sua trajetória política é marcada por uma retórica firme no combate ao crime, sintetizada no slogan: “em Goiás, bandido ou muda de profissão, ou muda de estado”. Agora, em escala nacional, o discurso se amplia: “ou muda de país”.
A crítica de especialistas, no entanto, vai em outra direção. Para muitos, rejeitar o uso de câmeras em um cenário de crescente cobrança por transparência e controle pode representar um equívoco estratégico, o que alguns classificam como “um tiro no pé”. Isso porque a sociedade, ao mesmo tempo em que exige segurança, também cobra limites claros para o uso da força estatal.
O ponto central do debate não é apenas tecnológico, mas institucional. Câmeras corporais não substituem treinamento, preparo psicológico ou políticas públicas consistentes. Mas funcionam como um mecanismo de controle, proteção jurídica, inclusive para o próprio policial, e instrumento de confiança entre Estado e cidadão.
Entre a necessidade de combater o crime com firmeza e a obrigação de preservar direitos, o Brasil segue tentando encontrar o equilíbrio. E, nesse caminho, cada escolha, seja de política pública ou de discurso, ajuda a definir não apenas o modelo de segurança, mas também o tipo de sociedade que se pretende construir.
