Desde que se apresentou como pré-candidato a governador, Marconi Perillo joga na expectativa de erro dos seus principais adversários, o governador Daniel Vilela (MDB) e o ex Ronaldo Caiado (PSD).
Aquilo:
- Daniel não vai assumir o governo, porque Caiado não vai conseguir ser candidato a presidente e, portanto, não vai renunciar;
- Daniel pode até assumir, mas não vai dar conta do recado, o MDB vai esfarinhar e o governo vai desandar;
- Daniel não vai conseguir segurar a base aliada governista de partidos, e a maioria vai migrar para o seu lado;
Essas coisas.
Que não aconteceram até agora. Vai acontecer?
E o que acontece: vem à tona a informação de que ele conseguiu um bom dinheiro com Daniel Vorcaro, do Banco Master.
R$ 14,5 milhões por uma consultoria básica.
Até aí, tudo bem. Basta que ele explique, dê a sua versão do caso. Que esclareça. Homem público. Candidato. Transparência. Necessário. Estratégico deixar tudo em pratos limpos.
E o que ele fala? Que precisava de “complemento de renda”, segundo conta hoje O Popular. Não ele propriamente, bom anotar. Marconi “afirmou por meio de sua equipe”, destaca o jornal.
A afirmação soa estranha. “Complemento de renda”? Complemento de R$ 14,5 milhões? Que renda!
Soa como desculpa terceirizada à equipe, convite subliminar ao entendimento público de desconforto. Por que não assumir a bronca de peito aberto, coragem e hombridade, se nada há de errado?
Marconi deixou Goiás assim que terminou o quarto mandato e perdeu a eleição para o Senado, quando Caiado venceu como governador.
Foi embora, fugiu, no discurso dos adversários. Deu asas inclusive à forte ironia dos caiadistas, que adaptam ao seu caso uma frase famosa nos últimos anos. Aquela que vaticina que ou muda de profissão, ou muda de Estado.
Na época, Marconi disse que mudou-se para São Paulo por necessidade financeira e profissional. Em outras palavras: não arranjou emprego em Goiás, foi arrumar lá.
A explicação é prima-irmã da que ele usa agora, ao dizer – por meio de sua equipe –, que precisou de complemento de renda, por isso aceitou os R$ 14,5 milhões de Vorcaro.
Poderia ter dito: surgiu uma oportunidade de ganhar um dinheirinho, e eu aproveitei, não sou de ferro. (Quem não entenderia? Quem nunca?)
Poderia ter dito: foi negócio lícito. Ele queria meus serviços e eu cobrei o que achava justo por conselhos e outras avenças. Caro? Eu sou caro etc etc. (Natural. Cada um cobra o preço que acha merecido pelos seus serviços.)
Poderia ter dito ainda: eita, vacilei. Peguei o serviço, o dinheiro limpo. Foi mal. Errei mas não fiz nada de errado, estão aqui os documentos e tal. (Fato.)
Poderia um monte de coisas. Mas disse o que disse. Não dá pra se dizer que ele disse, com uma ponta de cinismo, o que disse. Há sinceridade no personagem. O que você, leitor, acha?
Será que Marconi acredita que você acredita no que ele quer que você acredite, sinceramente? Acredita nisso?
Há ditos que dizem bem mais do que aparentam: eles dizem sobre a essência e sobre as intenções. O eleitor, que não é bobo nem nada, lê e ouve nas entrelinhas.
Difícil entender como Marconi Perillo escolhe falar por falar, em vez de dar significado ao que diz e faz. Os adversários agradecem.
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