O cinema do Centro-Oeste ganha um novo destaque no dia 13 de abril, quando Goiânia recebe a estreia do longa-metragem O tempo leva, o rio traz. A jornalista e documentarista Jota Lee Aguiar assina a direção da obra, que integra a programação da mostra O Amor, a Morte e as Paixões, um dos principais eventos cinematográficos da região, e marca a chegada do filme ao circuito exibidor.
A diretora finalizou o longa após um longo processo de pesquisa e montagem. O ponto de partida do filme foi a revisão de mais de 17 mil horas de imagens do programa Trilhas do Brasil, produção pioneira na defesa ambiental na televisão brasileira. Os jornalistas Rosângela Aguiar e Álvaro Duarte criaram o programa, que, ao longo de uma década, percorreu diferentes territórios do país, com especial atenção ao Cerrado. A série registrou paisagens, culturas e modos de vida profundamente ligados à terra.
Duas décadas após a primeira viagem que deu origem ao episódio piloto, mãe e filha retornam a esses territórios. O encontro entre o arquivo e o presente tece uma narrativa que confronta permanência e transformação, expondo as marcas da devastação ambiental e, simultaneamente, a resistência das comunidades e dos biomas.
O tempo leva, o rio traz transcende o gênero documental e se consolida como um filme-ensaio que entrelaça memória, luto e território. A obra propõe uma reflexão sobre herança e pertencimento, tendo o Cerrado como eixo central, um bioma vital para o equilíbrio hídrico do país e, contraditoriamente, um dos mais ameaçados do Brasil.
A diretora Jota Lee Aguiar define a obra como fruto de um atravessamento íntimo e político: “Esse filme é um reencontro com a minha própria história, mas também com uma memória coletiva que corre risco de desaparecer. Revisitar o Trilhas do Brasil foi entender que o que está em jogo não é só o passado, mas o futuro do Cerrado e das próximas gerações.”
Rosângela Aguiar, criadora do programa original e figura central do documentário, reforça essa dimensão geracional: “A gente percorreu o Brasil acreditando que registrar era uma forma de proteger. Ver esse material ganhar uma nova vida, através do olhar da minha filha, é perceber que essa luta continua – e talvez agora com ainda mais urgência.”
A estreia na mostra O Amor, a Morte e as Paixões carrega um simbolismo especial: além de lançar o filme, reafirma o cinema como espaço de memória, reflexão e disputa de narrativas sobre o território brasileiro.
