Embora o HPV (Papilomavírus Humano) seja frequentemente associado à saúde da mulher devido ao câncer de colo de útero, o vírus representa uma ameaça grave e, muitas vezes, subestimada para os homens.
Em entrevista ao PortalGO, o médico urologista Dr. Leandro Ferro, que atua na Hapvida e no Instituto Goiano de Oncologia e Hematologia, destacou que a associação entre o HPV e o câncer de pênis é um alerta que a população masculina não pode ignorar.
O mito do “problema feminino”
A percepção de que o HPV é uma questão exclusivamente feminina contribui para que muitos homens negligenciem os riscos. Segundo o Dr. Leandro, como o câncer de pênis não figura entre os dez tumores mais frequentes ou letais na população masculina, a doença acaba sendo subvalorizada.
“Quando a gente investiga homens que têm câncer de pênis, uma parte considerável também possui HPV”, explica o médico. Ele pondera que, embora a literatura mais antiga cite que 53% dos casos estão ligados ao vírus, dados mais recentes apontam para cerca de 20% a 23%. No entanto, o HPV permanece como um fator de risco relevante em uma evolução que ele descreve como “lenta e insidiosa”, podendo levar anos para se manifestar.
Higiene

Um dos pontos mais enfáticos é de que, apesar da importância do HPV, a principal causa de risco para o câncer de pênis é a falha na higienização. O Dr. Leandro reforça que a prevenção não exige alta tecnologia.
“Conseguimos prevenir a maior parte dos cânceres de pênis com simples higienização: água, sabonete e uma toalha limpa”.
A presença de fimose (dificuldade em retrair o prepúcio) agrava o risco, pois impede a limpeza adequada e dificulta que o próprio homem perceba lesões iniciais, levando a diagnósticos em fases avançadas.
Sinais de alerta e o autoexame
O especialista recomenda que os homens adotem o hábito do autoexame mensal durante o banho. Os principais sinais de alerta incluem:
- Feridas ou úlceras de difícil cicatrização, mesmo que não doam.
- Verrugas genitais, que são a forma mais comum de transmissão ativa do vírus.
- Manchas avermelhadas ou descamativas que persistem (como a eritroplasia de Queirat).
- Nódulos ou “caroços” na genitália ou na virilha.
O novo cenário
A mudança nos hábitos sexuais, especialmente a prática do sexo oral sem proteção, tem deslocado o vírus para outras áreas. O HPV e outros vírus, como o herpes tipo 2, estão cada vez mais presentes na cavidade oral. O sintoma mais comum para o câncer de orofaringe (garganta) ligado ao vírus é a dor ao engolir (deglutição) e a sensação de inchaço na língua.
Transmissor e a vacina
Além do risco individual, o homem desempenha um papel central na cadeia de transmissão que afeta suas parcerias. A vacinação masculina é essencial para gerar a chamada “imunidade de rebanho”, interrompendo a transmissão dos sorotipos cancerígenos que causam o câncer de colo de útero.
O Dr. Leandro ressalta que a vacina, disponível nas redes pública e privada, beneficia até mesmo quem já teve contato com o vírus ou já iniciou a vida sexual.
Barreiras: medo e tabu
O diagnóstico tardio no Brasil ainda é alimentado pelo preconceito e pelo medo do tratamento, que em estágios avançados pode ser mutilante, envolvendo a amputação parcial ou total do órgão. “Muitos homens, ao perceberem lesões que crescem, se afastam da família e da parceria por vergonha, o que retarda ainda mais a busca por ajuda”, lamenta o urologista.
A recomendação final é clara: o urologista deve ser visitado não apenas para exames de próstata no “Novembro Azul”, mas para uma avaliação constante da saúde genital e geral.
