Tô muito cansado dessa guerra de radicalismos no Brasil, na porta da rua e dentro de casa. Você não está?
Pesquisas têm indicado que os brasileiros estão, sim, exauridos desse bolsonarismo versus lulismo, que nem é a tradução real do que vivemos, penso eu.
Escolher lados e ter uma preferência política é legítimo, democrático. O real é que isso leva ao outro nível – este, sim, irritante: o extremismo emocional.
Sim, ideologia não explica as balas perdidas, porque ninguém sabe definir que ideologia defende de fato. O que há é uma mistura de conceitos, preconceitos, ignorância social e desonestidade comportamental baseada em imaginação desviada da realidade.
Compliquei aí porque o que está servido é um bolo de chocolate mental tão indefinível que um pouco de caldo de sociologia, psicologia e filosofia ajuda a colocar mais camadas nas camadas, para que a indigestão provoque, quem sabe, revolução, em vez de convulsão humana.
Já falei e já escrevi sobre a hipocrisia dos que defendem a família, mas tem duas famílias.
Sobre os que discursam em favor da vida, mas querem um fuzil na sala pra chamar de seu.
Sobre os que esbravejam contra a corrupção, mas estão lá, comprando votos e distribuindo emendas no Pix, sem prestação de contas.
Sobre os que acreditam ser donos da verdade, mas se escondem das CPIs e das entrevistas – correm da transparência de seus atos e pensamentos como o diabo corre da cruz.
Sobre os que veem os malfeitos no quintal alheio, mas passam pano para o pastor, o padre, o bispo, a igreja que tem banco e tem dízimo, sem prestação de contas e sem impostos.
Sobre os que lavam dinheiro próprio, mas xingam e condenam os que lavam dinheiro alheio e tiram o seu – o deles, diga-se.
Cansado. Cansado de olhar pra tudo isso e ver agonia sem solução. E de lutar para não me quedar diante da desilusão – com a política, com a vida.
Cansado de lutar e não deixar de lutar e mostrar resiliência, altivez, força, fé, ante a constatação de que, falível que sou, é questionável eu sofrer com a falibilidade dos outros – e inconcebível esperar redenção, já que ser humano é isto, ser imperfeito.
Afinal, não somos a busca e não a perfeição concluída?
Afinal, não somos senão um fim a ser alcançado, e não o fim de Darwin? Não não, sim sim?
Estou cansado de dar de cara com a realidade e ver salvação apenas na filosofia, conforto apenas na poesia, olhos tão somente para o imponderável, pois o que existe é isso, e não o que não posso mudar.
Estou cansado. Por certo. Mas isto aqui não é um lamento. Sou capaz de sorrir. Livre para escolher matar e morrer. Guerra é guerra. É outra história.
