Avatar de Leandro Rodrigues

Colunista do PortalGO

Compartilhe

O Brasil se cansou de Lula?

Análise das pesquisas de março de 2026 revela um desgaste estrutural que aponta para uma possível fadiga do ciclo lulista no Brasil.

ccba7c7f f246 4705 9958 | PortalGO
Lula — Imagem gerada por IA

Pesquisas de três institutos divulgadas em março de 2026, Genial/QuaestAtlas/Bloomberg e PoderData, convergem num ponto central: Lula chega a este momento com um desgaste maior do que seria desejável para buscar a reeleição em condição confortável. O dado relevante não é uma oscilação isolada, mas a repetição de um mesmo movimento em bases e metodologias distintas: aumento da desaprovação, piora da avaliação de governo e enfraquecimento relativo da posição política do presidente. Quando a fotografia se repete em levantamentos diferentes, o analista deixa de observar apenas ruído e passa a considerar a hipótese de mudança de ciclo político.

O desgaste deixou de ser pontual

Os números são eloquentes. Na Genial/Quaest de março de 2026, 44% aprovam e 51% desaprovam o governo Lula. Na mesma rodada, a avaliação do governo registra 43% de opinião negativa, 31% de avaliação positiva e 25% de avaliação regular. Na Atlas/Bloomberg, o quadro também é adverso: 53,5% desaprovam o desempenho do presidente e 45,9% aprovam, enquanto 49,8% avaliam o governo como ruim ou péssimo, contra 40,6% que o classificam como ótimo ou bom. No PoderData, o desgaste é ainda mais severo no plano pessoal: 61% desaprovam Lula e 31% o aprovam.

Quando Genial/Quaest, Atlas/Bloomberg e PoderData, com desenhos distintos, apontam na mesma direção, a conclusão razoável é que o problema deixou de ser episódico.

Mais importante do que o dado bruto é a estrutura desse desgaste. Lula continua forte em nichos decisivos de sua coalizão histórica. No Nordeste, por exemplo, a Quaest mostra 65% de aprovação e 31% de desaprovação. Entre os beneficiários do Bolsa Família, a aprovação vai a 57%, contra 38% de desaprovação. Entre eleitores com 60 anos ou mais, o saldo ainda é favorável. Isso significa que seu núcleo social não colapsou. Entretanto, eleições presidenciais exigem mais do que um núcleo fiel. Exigem expansão, capilaridade e capacidade de falar com o eleitor mediano, especialmente com independentes e segmentos menos ideologizados. E é justamente aí que o problema aparece. Na Quaest, entre independentes, Lula tem 33% de aprovação e 57% de desaprovação. No Sudeste, aprova 37% e desaprova 58%. Entre os mais jovens, de 16 a 34 anos, a desaprovação chega a 56%. Entre os de renda mais alta, vai a 63%. Entre os com ensino superior, também alcança 62%.

O problema não está só na base oposicionista

A Quaest mostra ainda que o desgaste não se limita ao eleitorado bolsonarista mais organizado. Ele aparece em clivagens sociais que costumam ser decisivas em eleições nacionais. Entre católicos, Lula aparece praticamente empatado, com 49% de aprovação e 47% de desaprovação. Entre evangélicos, porém, o quadro é claramente adverso: 33% aprovam e 61% desaprovam. A Atlas/Bloomberg reforça a direção geral desse movimento ao registrar desaprovação majoritária do presidente no agregado nacional. Não se trata, portanto, de uma simples resistência de nicho.

Trata-se de um enfraquecimento que já alcança setores importantes do eleitorado médio.

Não é só desaprovação, é fadiga de ciclo

É aqui que a ideia de cansaço se torna mais precisa. O eleitor não está apenas descontente com uma política pública, com um ministro ou com um tropeço conjuntural. Ele parece estar emitindo um juízo mais amplo sobre o ciclo lulista. Esse ponto aparece de forma indireta, mas consistente, quando diferentes pesquisas, como Genial/Quaest, Atlas/Bloomberg e PoderData, deixam de registrar apenas oscilações conjunturais e passam a mostrar desgaste recorrente de imagem, piora na percepção do governo e perda de tração política do presidente.

Depois de décadas de centralidade lulopetista na política brasileira, o problema de Lula já não é desconhecimento. É saturação. O eleitor sabe quem Lula é. E, para uma parcela crescente do país, isso já não basta.

Quando o voto retrospectivo passa a operar contra o incumbente

Esse ponto é crucial. A literatura de comportamento eleitoral, especialmente a tradição do voto retrospectivo associada a V. O. Key Jr. e Morris Fiorina, sugere que eleitores tendem a julgar governos pelo desempenho que percebem ter experimentado. Quando inflação de alimentos, sensação de perda de poder de compra, ruído político, fadiga de imagem e percepção de governo cansado começam a se combinar, o incumbente entra na zona de risco. Não porque a oposição tenha necessariamente construído uma alternativa superior, mas porque

o governante deixa de representar futuro e passa a representar continuidade do desgaste. E continuidade do desgaste, em política, raramente mobiliza a maioria.

Há ainda um dado particularmente revelador. No PoderData, o governo é mais bem avaliado do que Lula pessoalmente. Enquanto o presidente tem 31% de aprovação e 61% de desaprovação, o governo marca 37% de aprovação e 57% de desaprovação. Isso sugere que parte do problema já não está apenas na administração, mas também na figura do próprio Lula. Em outras palavras, o país não está apenas cansado do governo. Está cansado do personagem central do governo. Isso é mais grave, porque é muito mais difícil substituir a imagem do líder do que recalibrar uma agenda administrativa.

Também chama atenção o fato de que esse desgaste não é estático. Nos três levantamentos, Genial/QuaestAtlas/Bloomberg e PoderData, o movimento aparece como tendência, e não como ponto fora da curva. A série da Quaest chega a março de 2026 com 51% de desaprovação e 44% de aprovação. A Atlas fecha com 53,5% de desaprovação e 45,9% de aprovação. O PoderData registra a maior desaprovação pessoal de Lula em dois anos. O importante aqui não é só o patamar, mas a direção.

Em política, tendência pesa mais do que fotografia. Um candidato pode até sobreviver a um momento ruim. O que costuma ser mais difícil de reverter é a percepção coletiva de que entrou numa curva descendente.

Quando a mudança vira sentimento social

Isso ajuda a entender por que a reeleição de Lula, hoje, aparece menos provável do que aparecia há alguns meses. Não se trata de afirmar impossibilidade, mas de reconhecer que o presidente chega ao ciclo decisivo da disputa em posição mais vulnerável do que seria desejável para buscar um novo mandato. A Atlas já mostra, numa repetição hipotética do cenário de 2022, Bolsonaro com 44,8% e Lula com 42,7%. Mesmo sendo um exercício contrafactual, o dado é simbolicamente poderoso: Lula já não aparece sequer dominando com conforto a memória da eleição passada. Isso sugere que a legitimidade retrospectiva de 2022 perdeu parte de sua força como ativo mobilizador para 2026.

O ambiente público também piorou para o presidente. Na Quaest de março de 2026, 47% dizem ter visto mais notícias negativas sobre o governo Lula, contra 24% que dizem ter visto mais notícias positivas. Isso não prova, por si só, mudança eleitoral consolidada, mas funciona como sinalizador. Quando a crítica a um líder deixa de ser comportamento de tribo e passa a ser socialmente normalizada, o custo simbólico de romper com ele diminui. E, quando isso acontece, a erosão tende a acelerar. O movimento captado por Atlas, Genial/Quaest e PoderData ajuda a mostrar esse novo clima:

o desgaste de Lula já não aparece apenas como tese oposicionista, mas como hipótese cada vez mais presente no debate público.

No fundo, o que está em curso é uma mudança de chave. Lula ainda tem base, ainda tem recall, ainda tem densidade política e ainda pode disputar. Mas já não parece encarnar esperança majoritária. E esse talvez seja o dado mais importante de todos. Presidentes se reelegem quando conseguem convencer o eleitor de que ainda representam solução. Quando passam a representar desgaste, repetição e exaustão de ciclo, o jogo muda de natureza. A eleição deixa de ser um plebiscito entre governo e oposição e passa a ser um plebiscito entre permanência e mudança.

E, quando o sentimento de mudança começa a se organizar no imaginário eleitoral, revertê-lo se torna uma tarefa politicamente complexa. Porque, a partir desse ponto, cada erro confirma a fadiga, cada crise reforça a saturação e cada crítica encontra terreno fértil.

É assim que ciclos terminam: não de uma vez, mas quando o país, pouco a pouco, deixa de ver o governante como resposta e passa a vê-lo como parte do problema.

Newsletter
Receba as principais notícias e atualizações do PortalGO direto no seu e-mail.
Avatar de Leandro Rodrigues
Recentes
Dez anos de crises humanitárias ganham retrato em mostra fotográfica no CCON
Dez anos de crises humanitárias ganham retrato em mostra fotográfica no CCON
Cultura · 5h

Dez anos de crises humanitárias ganham retrato em mostra fotográfica no CCON

Cavalhadas em São Francisco e Hidrolina neste fim de semana
Cavalhadas em São Francisco e Hidrolina neste fim de semana
Cultura · 8h

Cavalhadas em São Francisco e Hidrolina neste fim de semana

Campanhas em GO têm muita pesquisa, mas estratégia de menos. Candidatos perdem a noção
Campanhas em GO têm muita pesquisa, mas estratégia de menos. Candidatos perdem a noção
Colunas · 14h

Campanhas em GO têm muita pesquisa, mas estratégia de menos. Candidatos perdem a noção

Alcolumbre condiciona avanço da PEC da escala 6×1 a acordo político e reunião com Lula
Alcolumbre condiciona avanço da PEC da escala 6×1 a acordo político e reunião com Lula
Brasil · 15h

Alcolumbre condiciona avanço da PEC da escala 6×1 a acordo político e reunião com Lula

Mais do PortalGO
WhatsApp Image 2026 06 16 at 16.38.45 | PortalGO
Novo laboratório de IA projeta TJGO na vanguarda tecnológica do Judiciário
Parceria com UFG, USP e UnB amplia capacidade de desenvolvimento de soluções tecnológicas para magistrados, servidores e projetos de impacto social em Goiás 19 jun 2026 · Justiça
OAB | PortalGO
OAB-GO abre discussão sobre decisões monocráticas e mandatos no STF
Audiência pública em Goiânia integra mobilização nacional da OAB e reúne propostas para mudanças no funcionamento dos tribunais superiores 19 jun 2026 · Justiça
el nino 906884 e1781819703217 | PortalGO
Nottus prevê inverno ameno com El Niño ativo
Inverno sob El Niño terá chuvas no Sul e ondas de calor no interior, diz Nottus. Fenômeno pode chegar a ‘Super’ em setembro e durar até 2027. 19 jun 2026 · Meio Ambiente
WhatsApp Image 2026 06 18 at 15.03.22 | PortalGO
Comissão aprova parecer de Adriana Accorsi sobre diretrizes das Rondas Maria da Penha
Medida foca na fiscalização rigorosa do cumprimento de medidas protetivas de urgência 18 jun 2026 · Brasil
53627306406 1bd15662ee k | PortalGO
STF anula absolvição de acusado por estupro de Mariana Ferrer
Ministros do STF votam por anular processo de Mariana Ferrer; audiência com humilhação invalida absolvição. Novo julgamento sem juiz original. 18 jun 2026 · Justiça
captura de tela 2026 05 11 064248 e1781814788140 | PortalGO
Ypê avança com laudos e libera lotes de março
Ypê tem lotes de março liberados pela Anvisa; empresa aguarda análise de janeiro e fevereiro. Lava-roupas proibidos têm troca. 18 jun 2026 · Saúde
1774648794 alego | PortalGO
Projeto limita gastos dos Poderes e alinha ao Propag
Projeto em Goiás fixa teto de gastos para Poderes e órgãos autônomos, alinhando o Estado ao Propag. TCE fiscalizará metas. Quem descumprir sofre restrições. 18 jun 2026 · Economia
imagem materia | PortalGO
Senado aprova educação política na grade escolar
Senado aprova inclusão de educação política e direitos da cidadania. Projeto aguarda sanção. Hamilton Mourão votou contra alegando “risco de ideologização”. 18 jun 2026 · Educação
senior woman confronting alzheimer disease | PortalGO
Anvisa veta lotes de soro e antibióticos injetáveis
Anvisa recolhe lotes de Polycid, fosfato de clindamicina e soro fisiológico. Fragmento de vidro, partículas e desvios de qualidade motivaram a decisão. 18 jun 2026 · Saúde
WhatsApp Image 2026 06 18 at 10.50.55 | PortalGO
Ana Paula Rezende faz campanha como Wilder Morais não faz
A proatividade de Ana Paula Rezende contrasta com a inércia de Wilder Morais e agita os bastidores do PL na disputa pelo governo de Goiás. 18 jun 2026 · Colunas