Em meio ao recorde de feminicídios no Brasil, 1.470 mulheres mortas em 2025, quatro por dia, uma trend do TikTok que simula reações violentas após rejeição amorosa viralizou nas redes. Com a frase “treinando caso ela diga não”, os criadores encenam socos, golpes de luta e facadas em objetos. A plataforma removeu os vídeos, publicados entre 2023 e 2025, por violarem as diretrizes.
A trend ganhou força num momento em que casos reais de violência após rejeição chocam o país. No Rio de Janeiro, uma jovem de 20 anos levou mais de 15 facadas dentro de casa de um homem que não aceitou a recusa; ela sobreviveu após quase um mês internada.

Em Pernambuco, uma mulher de 22 anos morreu esfaqueada e teve o corpo incendiado por um ex-colega de trabalho que se apaixonara por ela. Em Minas Gerais, uma mulher de 38 anos morreu após ser atacada com canivete por um jovem que tentou forçar um beijo durante a negociação de um celular.
A pesquisadora Raquel Saraiva, do IP.rec, afirma que as plataformas lucram com esse tipo de conteúdo viral, que se espalha mais rapidamente do que materiais educativos. “Certamente um vídeo dessa trend vai viralizar muito mais do que um vídeo educativo dizendo por que isso é violência contra a mulher”, disse. Luciano Ramos, do Instituto Mapear, relaciona a tendência ao movimento red pill e alerta que ela normaliza o machismo como “norma comportamental”.
Nos comentários, as reações divergem. Parte do público critica o conteúdo, afirmando que violência contra mulheres não deve ser tratada como humor. “Violência contra as mulheres não é piada”, escreveu uma usuária. Outros classificam o conteúdo como “preocupante”. Em alguns casos, os próprios autores respondem às críticas com emojis de risada.

Diante da repercussão, a deputada Duda Salabert acionou o Ministério Público para investigar os perfis, e a Comissão de Segurança Pública da Câmara deve votar nesta terça um requerimento para que a PGR investigue o conteúdo.










