Para muitas famílias de crianças neurodivergentes, o momento das refeições pode se transformar em um verdadeiro campo de batalha devido à seletividade alimentar. A recusa em tocar ou provar novos alimentos não é apenas uma questão de “paladar exigente”, mas um desafio que envolve aspectos sensoriais, comportamentais e até orgânicos. Em Goiânia, um projeto está mudando essa realidade ao transformar a cozinha em um ambiente terapêutico de descoberta e prazer.
A metodologia SOS
A fonoaudióloga Juliana Menezes, diretora técnica da clínica Affect, explica que a alimentação é um processo social e cultural que envolve todos os sentidos. O projeto utiliza a metodologia internacional SOS Approach, que compreende o ato de comer como um processo complexo de 32 fases. “É uma escadinha, é comer, cheirar e tocar, até chegar lá em cima. A gente vai trabalhando todos esses sentidos gradativamente”, explica Juliana.
Segundo a especialista, o ambiente da cozinha desfaz a rigidez por vezes presente no consultório tradicional.
“Alimentação não é só levar o alimento à boca. Ele é social, ele é cultural. Na hora que a gente está ali brincando com o alimento, tendo a experiência de tocar, de abrir a geladeira, a criança se sente envolvida e começa a fazer uma conexão positiva”, destaca.
“Efeito espelho”

Um dos grandes diferenciais das oficinas é o trabalho em grupo. Juliana destaca o “efeito espelho”, onde a criança aprende por imitação ao observar seus pares interagindo com os alimentos. “Quando ela vê o colega levar o alimento à boca, ela se sente encorajada e vê que aquele momento pode ser prazeroso”, afirma a especialista.
A eficácia do tratamento também reside na união entre o olhar clínico e a técnica gastronômica. Uma chef de cozinha, em conjunto com nutricionistas e fonoaudiólogas, adapta receitas tradicionais para garantir o “conforto sensorial” dos pacientes. Isso inclui o cuidado rigoroso com alergias alimentares, priorizando preparos sem glúten e sem lactose, além de texturas que respeitem a capacidade motora de cada criança.
O papel fundamental da família
O impacto do projeto vai muito além das paredes da clínica. Para famílias que antes não conseguiam frequentar festas de aniversário ou restaurantes devido à intolerância sensorial dos filhos, o ganho de autonomia representa uma mudança na qualidade de vida.
Para que o progresso não se perca na rotina, as famílias são integradas ao processo. Ao final das sessões, os pais recebem feedbacks individuais e aprendem a reproduzir as receitas e estratégias em casa, garantindo que tudo se torne mais acolhedor.
Recusa alimentar não é “fase”
Juliana finalizou a nossa conversa ressaltando a importância da intervenção precoce. “A recusa alimentar não é apenas uma fase. Quanto antes identificar os sinais e procurar ajuda especializada, mais eficaz será o tratamento”, alerta. Ela recomenda que as famílias busquem equipes multidisciplinares capacitadas para evitar que quadros leves possam piorar por falta de orientação correta.
