Entenda como funciona o Domo de Ferro de Israel

Sistema antimísseis de Israel volta aos holofotes após ataque massivo do Irã e levanta debate sobre seus limites e eficácia.

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israel | PortalGO
Fonte: Anas Baba

Nas últimas décadas, Israel se destacou mundialmente não apenas por seu poder militar, mas principalmente por seu sofisticado sistema de defesa aérea conhecido como Domo de Ferro (Iron Dome). Desde que entrou em operação em 2011, esse sistema já interceptou milhares de mísseis lançados por grupos hostis como o Hamas e o Hezbollah. No entanto, o mais recente ataque do Irã colocou à prova a capacidade do Domo de Ferro como nunca antes.

Na madrugada de um sábado em abril de 2024, o Irã lançou uma ofensiva sem precedentes, disparando centenas de mísseis balísticos e drones simultaneamente contra o território israelense. Apesar da atuação do Domo de Ferro e de outros sistemas de defesa como o Arrow e o David’s Sling, alguns projéteis conseguiram ultrapassar a rede defensiva e atingiram alvos urbanos, deixando dezenas de feridos, principalmente em Tel Aviv.

Esse evento reacendeu uma discussão internacional: até que ponto o Domo de Ferro é invulnerável? E, afinal, como funciona esse sofisticado escudo antiaéreo que há mais de uma década protege cidades inteiras de ataques mortais?


Um escudo invisível: como o Domo de Ferro opera

O Domo de Ferro é um sistema de defesa aérea móvel projetado para interceptar e destruir foguetes de curto alcance, mísseis e projéteis de artilharia antes que atinjam áreas povoadas. O sistema foi desenvolvido em conjunto pelas empresas israelenses Rafael Advanced Defense Systems e Israel Aerospace Industries (IAI), com financiamento e cooperação tecnológica dos Estados Unidos. Seu desenvolvimento foi motivado pela crescente ameaça de foguetes lançados a partir da Faixa de Gaza e do sul do Líbano.

A arquitetura do sistema é dividida em três componentes principais:

  1. Radar de detecção e rastreamento
    Um radar extremamente sensível, instalado em estações móveis, detecta lançamentos de foguetes em tempo real. Ele pode rastrear até 1.100 ameaças simultâneas e identifica, em questão de segundos, o tipo, velocidade e trajetória do projétil inimigo.
  2. Centro de controle de batalha
    O “cérebro” do sistema. Esta central analisa rapidamente os dados fornecidos pelo radar e calcula a trajetória exata de cada míssil, determinando com alta precisão o provável ponto de impacto. Se o sistema concluir que o míssil vai cair em uma área despovoada, nenhum interceptador é lançado — uma forma de evitar desperdício, já que cada interceptação custa dezenas de milhares de dólares.
  3. Lançador de interceptores Tamir
    Se um míssil é considerado uma ameaça real a áreas habitadas, o sistema aciona um dos lançadores, que dispara o míssil interceptador Tamir. Esse projétil pode atingir velocidades superiores a Mach 2,2 (mais de duas vezes a velocidade do som) e usa sensores próprios para detonar próximo ao alvo, liberando estilhaços que destroem o míssil atacante ainda no ar.

Desde sua implantação, o Domo de Ferro é considerado uma revolução na guerra moderna. Com uma taxa de sucesso de aproximadamente 90%, ele já salvou milhares de vidas em Israel. Durante períodos de maior tensão com o Hamas e o Hezbollah, o sistema mostrou-se incrivelmente eficaz contra salvas esporádicas ou até dezenas de foguetes lançados simultaneamente.

Contudo, o ataque do Irã mudou o cenário. Diferentemente das táticas usadas por grupos menores, o Irã utilizou mísseis balísticos de longo alcance, em ondas de ataque massivas e coordenadas, com o objetivo de sobrecarregar os sistemas defensivos israelenses. Embora o Domo de Ferro tenha interceptado a maioria das ameaças, a grande quantidade de projéteis forçou o sistema aos seus limites.

Esse tipo de estratégia — conhecida como saturação — é particularmente eficaz contra sistemas como o Iron Dome, que, apesar de móveis e altamente tecnológicos, possuem um número limitado de interceptores disponíveis por vez. Além disso, cada míssil Tamir custa cerca de US$ 40 mil a US$ 50 mil, o que torna economicamente inviável interceptar todos os mísseis de baixo custo lançados em grandes quantidades.

O Iron Dome é apenas a primeira linha de defesa. Para lidar com ameaças mais sofisticadas — como mísseis de longo alcance e ogivas balísticas — Israel conta com outros dois sistemas complementares:

  • David’s Sling (Estilingue de Davi): Projetado para interceptar mísseis táticos e balísticos de alcance intermediário. Atua em altitudes e distâncias maiores que o Iron Dome.
  • Arrow (Seta): Desenvolvido para interceptar mísseis balísticos de longo alcance, inclusive ogivas fora da atmosfera terrestre. O Arrow é a camada mais elevada do sistema de defesa.

Esses três sistemas operam de forma integrada, formando o chamado “escudo multicamada” de Israel, que também recebe cooperação direta dos EUA, inclusive com tropas americanas operando conjuntamente em bases israelenses.

Embora sua eficiência seja comprovada, o Domo de Ferro é extremamente caro de operar. Durante apenas um dia de ataque intenso, centenas de interceptadores podem ser disparados, resultando em milhões de dólares em gastos. Em um conflito prolongado com um adversário de médio ou grande porte — como o Irã —, isso representa um desafio logístico, financeiro e estratégico para Israel.

Além disso, o avanço tecnológico de países como Irã, Coreia do Norte e Rússia levanta preocupações sobre novos tipos de projéteis, como mísseis hipersônicos e drones kamikazes em enxame, que poderiam driblar até os sistemas mais modernos.


A escalada da tensão entre Irã e Israel

O ataque recente não aconteceu em um vácuo. As tensões entre Irã e Israel são antigas e envolvem fatores geopolíticos, religiosos e militares. O Irã apoia ativamente grupos hostis a Israel como o Hezbollah no Líbano e o Hamas em Gaza. Além disso, o desenvolvimento de um possível programa nuclear iraniano é uma preocupação constante para o governo israelense, que já realizou ataques preventivos contra instalações nucleares iranianas.

O ataque de abril de 2024 foi considerado uma resposta direta à morte de comandantes iranianos em um ataque aéreo atribuído a Israel em Damasco, na Síria. Embora a maioria dos mísseis iranianos tenha sido interceptada, o simbolismo do ataque é claro: o Irã quis mostrar que é capaz de atingir diretamente Israel com poder de fogo significativo.

Essa nova fase do conflito levanta preocupações sobre uma guerra regional de grande escala, algo que tanto potências ocidentais quanto países árabes desejam evitar.

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