Todo leitor, que em algum momento quis explorar a história antiga, deve se lembrar de ter imaginado um evento em particular: chamas imensas consumindo rolos de papiro insubstituíveis enquanto o conhecimento da humanidade retrocede séculos em uma única noite. Esse cenário construído no imaginário popular é o famoso incêndio na Biblioteca de Alexandria.
No entanto, para historiadores e arqueólogos, a queda da Grande Biblioteca de Alexandria está menos próxima de um incêndio repentino e mais parecida com uma lenta e dolorosa agonia burocrática e política. Diferente do que Hollywood sugere, a maior instituição de ensino do mundo antigo não teve um único vilão, mas sim uma sucessão de crises que se estenderam por quase 700 anos.
O primeiro suspeito
O primeiro grande golpe ocorreu em 48 a.C. Durante a guerra civil entre César e Pompeu, o general romano incendiou sua própria frota no porto de Alexandria. Embora a lenda diga que a Biblioteca foi destruída, o classicista e historiador Luciano Canfora argumenta, em sua obra A Biblioteca Desaparecida, que o fogo provavelmente atingiu armazéns (apothekai) próximos ao cais, onde milhares de rolos destinados à exportação e comércio estavam estocados, e não o acervo principal do Museu.
Esta tese é reforçada pelo silêncio de autores contemporâneos. O geógrafo Estrabão, que visitou Alexandria e trabalhou no Museu cerca de 20 anos após o incidente, descreve as instalações de pesquisa em pleno funcionamento, sem mencionar qualquer reconstrução ou perda catastrófica recente.
Cortes de verba e política
A verdadeira “morte” da biblioteca pode ter sido causada por fatores ambientais e econômicos. O historiador Roger Bagnall aponta que a sustentabilidade da biblioteca era ameaçada pela própria natureza do suporte físico dos textos: o papiro.
Situada no clima úmido do Delta do Nilo, a biblioteca lutava contra a deterioração orgânica. Sem um investimento contínuo para a recópia dos textos — um processo caro que dependia de subsídios reais que minguaram com a crise econômica do Império Romano — milhares de obras desapareceram devido ao mofo e à ação de insetos, muito antes de qualquer tocha ser acesa.
Religião e o golpe final
O golpe de misericórdia é frequentemente associado às tensões religiosas. Em 391 d.C., o imperador Teodósio I ordenou a destruição de templos pagãos, e o Serapeu (uma biblioteca “filha”) foi atacado. Contudo, o relato do historiador cristão Paulo Orósio, que visitou a cidade pouco depois, sugere que os “armários de livros” nos templos já estavam vazios antes mesmo da destruição física do edifício, indicando que o acervo já havia sido disperso ou saqueado anteriormente.
Quanto à conquista muçulmana em 642 d.C., frequentemente citada como o capítulo final, historiadores modernos como Bernard Lewis classificam a história dos livros queimados em banhos públicos como uma lenda tardia, surgida séculos após o evento e sem base em crônicas árabes contemporâneas da conquista.
O conhecimento que sobreviveu
Apesar das perdas, a ideia de um “apagão” total é contestada. Como demonstra o pesquisador Dimitri Gutas em seus estudos sobre o movimento de tradução greco-árabe, o conhecimento de Alexandria não desapareceu, mas migrou. Textos fundamentais foram traduzidos para o siríaco e, posteriormente, para o árabe, alimentando a “Casa da Sabedoria” em Bagdá séculos depois, além de serem preservados em Constantinopla.
A lição que Alexandria deixa, portanto, é sobre a fragilidade da memória. Hoje, a nova Bibliotheca Alexandrina, um projeto arquitetônico do estúdio Snøhetta inaugurado em 2002, tenta retomar esse papel, servindo como um monumento moderno à preservação digital e física contra o esquecimento.










