O peso da perfeição e o adoecimento silencioso das mulheres goianas

Diagnósticos de depressão crescem 28% em Goiás; especialista alerta para sobrecarga feminina e os riscos da depressão funcional.

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Enquanto o mês de março celebra a ocupação de novos espaços pelas mulheres, os dados de saúde mental em Goiás revelam o peso de uma conta que ainda não fechou: o avanço na vida pública não foi acompanhado pelo alívio nas responsabilidades domésticas e de cuidado. Segundo a pesquisa Vigitel 2025, o estado enfrenta um salto de 28% nos diagnósticos de depressão em apenas três anos.

Para a psicóloga Caroline Dias (38 anos), especialista em neuropsicologia, esse cenário é o reflexo de um sistema que exige alta produtividade sem oferecer suporte. “Graças a Deus, as pessoas realmente elas têm buscado mais ajuda, têm entendido mais que alguns sinais e sintomas não são normais”, afirma a especialista, notando que a queda do tabu sobre a doença tem levado mais mulheres ao consultório.

A armadilha da jornada dupla e o papel de cuidadora

A disparidade de gênero nos diagnósticos — onde a depressão é cerca de 3,7 vezes mais frequente em mulheres do que em homens no estado — encontra raízes em pressões sociais profundas. Caroline explica que as mulheres vivem mergulhadas em uma expectativa de onipotência: “Existe sim uma expectativa que ela dê conta de tudo. A mulher hoje trabalha, cuida da casa, da família, dos filhos e muitas vezes entra como um papel esperado socialmente de cuidadora de pais”.

Esse fardo, segundo ela, é alimentado por uma busca incessante por dar conta de tudo em todas as áreas: “A gente tenta de fato ser perfeita. A gente quer ser excelente profissional, excelente em tudo e aí a gente vai mantendo um ritmo de alta produtividade para equilibrar todos esses papéis”. Essa busca pelo ideal, que inclui desde a “maternidade idealizada” até padrões estéticos irreais, atua como um combustível constante para o esgotamento.

A máscara da produtividade

Um dos maiores perigos apontados pela psicóloga é a chamada “depressão funcional”, em que a mulher mantém sua rotina enquanto adoece internamente. Ela alerta que a ausência de tristeza profunda não descarta o diagnóstico, pois o principal sintoma pode ser a exaustão ou a perda de alegria

“Nem sempre a pessoa precisa estar triste para estar com uma depressão. O que acontece com a mulher goiana é que ela não se sente triste, ela se sente exausta, sem alegria”.

Caroline utiliza uma metáfora comum em seu consultório para descrever o cansaço clínico: “Se a mulher acorda parecendo que passou um caminhão por cima, esse cansaço não é um cansaço normal. O cansaço normal é resolvido com descanso, com noite de sono”. O alerta vermelho deve ser ligado quando atividades antes prazerosas perdem o sentido: “O almoço de domingo em família tá pesado. A saída com as amigas já não tem muita graça. Ela está segurando todos os pratos ali, mas está perdendo a alegria”.

Insegurança financeira

O ambiente corporativo também exerce um papel significativo no agravamento da saúde mental feminina, especialmente quando se coloca na balança as disparidades salariais que em Goiás podem chegar a R$ 1.100, segundo dados do IBGE / Pnad Contínua (2024/2025). Enquanto o rendimento masculino ficou em aproximadamente R$ 3.500, o feminino ficou em torno de R$ 2.400.

Caroline destaca que essa desigualdade gera um estresse constante de legitimação: “A mulher precisa provar mais a competência dela, principalmente em ambientes profissionais que são muito masculinos para que ela sobreviva”. Além da injustiça financeira, a depressão afeta diretamente a biologia do trabalho, prejudicando o foco e a tomada de decisão.

“Decisões que eram simples de ser tomadas, agora precisam de um esforço maior”, explica a psicóloga, ressaltando que esse prejuízo cognitivo gera um ciclo de insegurança que afeta não apenas a carreira da mulher, mas toda a estabilidade da renda familiar.

O caminho da reestruturação através da TCC

Como solução para esse cenário, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) surge como o tratamento de escolha devido à sua objetividade e base em evidências. Caroline, que escolheu a abordagem por sua “cientificidade” e caráter “prático”, explica que o foco é reequilibrar a tríade entre pensamento, emoção e comportamento.

“A TCC vai ajudar essa mulher a identificar essas dificuldades e ressignificar ou reestruturar isso. À medida que isso vai acontecendo, aquela autocobrança tende a diminuir”.

O objetivo final é ampliar a consciência para que a mulher deixe de ser refém de padrões automáticos: “Não existe abordagem melhor ou pior, porque todas vão levar a gente para o mesmo lugar, que é ampliar o nível de consciência dessa pessoa que nos procura”, conclui Caroline, reforçando que tratar a depressão é, acima de tudo, um ato de recuperação da própria vida.

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