No início de 1900, um grupo de mergulhadores gregos de esponjas, refugiando-se de uma tempestade, ancorou perto da pequena ilha de Anticítera, entre a Grécia continental e Creta. O que eles encontraram a cerca de 45 metros de profundidade não foram apenas esponjas, mas os restos de uma galé romana carregada de tesouros. Entre estátuas de mármore, cerâmicas e joias, um fragmento de bronze corroído e esverdeado passou quase despercebido. Mal sabiam eles que aquele aparente “pedaço de rocha” mudaria profundamente nossa compreensão sobre a história da ciência e da engenharia.
O que é o Mecanismo de Anticítera?

O Mecanismo de Anticítera é considerado pelos historiadores da ciência como o computador analógico mais antigo conhecido. Datado de aproximadamente 150 a.C. a 100 a.C., o artefato consiste em um complexo sistema de engrenagens de bronze, originalmente abrigado em uma caixa de madeira com dimensões semelhantes às de uma caixa de sapatos.
Não há outro objeto conhecido da Antiguidade com nível comparável de sofisticação mecânica. Engrenagens com dentes triangulares, relações matemáticas precisas e múltiplos mostradores indicam um domínio técnico que só voltaria a aparecer na Europa com os relógios astronômicos mecânicos do final da Idade Média, mais de mil anos depois.
As funções: um cosmos mecânico
Graças a décadas de estudos utilizando tomografia computadorizada e raios X de alta resolução, pesquisadores conseguiram decifrar parte significativa das inscrições — algumas com letras de apenas 2 milímetros de altura — e da mecânica interna do mecanismo. Hoje, sabe-se que ele não era apenas um calendário, mas uma sofisticada máquina astronômica:
- Rastreamento solar e lunar: O mecanismo acompanhava o movimento aparente do Sol ao longo do zodíaco e reproduzia as fases da Lua com notável precisão.
- Previsão de eclipses: Um mostrador traseiro utilizava o ciclo de Saros para indicar a ocorrência de eclipses solares e lunares futuros, inclusive com informações sobre seu tipo e periodicidade.
- Calendário esportivo: O aparelho também registrava os ciclos dos Jogos Pan-helênicos, incluindo os Jogos Olímpicos, refletindo a importância cultural e política desses eventos no mundo grego.
Algumas reconstruções modernas sugerem que o mecanismo pode ter incluído indicações dos cinco planetas conhecidos na Antiguidade — Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. No entanto, nenhuma engrenagem planetária foi preservada, e essa função permanece uma hipótese baseada em modelos teóricos e textos antigos, não em evidência material direta. Há também estudos que, curiosamente, defendem que o mecanismo era um brinquedo.
Por que ele é tão importante?

O Mecanismo de Anticítera representa uma verdadeira anomalia histórica. Ele demonstra que a astronomia matemática grega — possivelmente influenciada por pensadores como Hiparco de Niceia — não era apenas teórica, mas também aplicada em dispositivos mecânicos de extrema precisão.
Para muitos pesquisadores, o impacto do achado é comparável a descobrir uma tecnologia fora de lugar em sua época. Sem esse objeto físico, a maioria dos historiadores dificilmente aceitaria que artesãos da Antiguidade fossem capazes de produzir um sistema de engrenagens tão complexo e funcional.
O mistério que permanece
Apesar dos avanços no estudo do mecanismo, uma pergunta continua sem resposta: onde estão os outros? Um artefato dessa complexidade dificilmente teria sido um experimento isolado. Sua existência sugere uma tradição de fabricação de instrumentos científicos avançados que se perdeu com o declínio do mundo helenístico, as guerras, e as transformações políticas do Mediterrâneo antigo.
Hoje, os fragmentos originais estão preservados no Museu Arqueológico Nacional de Atenas. Eles permanecem como um lembrete poderoso de que o engenho humano pode atingir níveis extraordinários, ser esquecido pelas camadas do tempo e, milênios depois, surgir novamente para nos obrigar a reescrever a história do conhecimento.
Referências
- Museu Arqueológico Nacional de Atenas. Antikythera Shipwreck and Mechanism.
- Freeth, T. et al. (2006). Decoding the ancient Greek astronomical calculator known as the Antikythera Mechanism. Nature, 444, 587–591.
- Freeth, T. et al. (2008). Calendars with Olympiad display and eclipse prediction on the Antikythera Mechanism. Nature, 454, 614–617.
- Marchant, J. (2010). In Search of Lost Time: The Science of the Antikythera Mechanism. Scientific American.
- Antikythera Mechanism Research Project (AMRP). Relatórios técnicos e imagens de tomografia.
- Freeth, T. et al. (2008). Nature, 454, 614–617.
- Freeth, T. et al. (2021). A Model of the Cosmos in the ancient Greek Antikythera Mechanism. Scientific Reports, 11:5821.
- Wright, M. (2007). The Antikythera Mechanism: A New Gear Reconstruction. Bulletin of the Scientific Instrument Society.
- Price, D. de Solla (1974). Gears from the Greeks. Transactions of the American Philosophical Society.
- Museu Arqueológico Nacional de Atenas — Coleção permanente.









