Para além da lata de conserva: o que realmente protege a família brasileira?

Uma análise da contradição entre a retórica eleitoral de “proteção à família” e a carência de direitos básicos no cotidiano brasileiro.

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Reprodução

A ideia para este texto nasceu de um diálogo instigante com o colega Wellington Borges, doutorando em Comunicação. Discutíamos como um desfile de Carnaval, especificamente a ala da Acadêmicos de Niterói que retratou a família dentro de uma lata de conserva, transbordou a Sapucaí e invadiu o debate público. A imagem, que pretendia criticar o “congelamento” de modelos ideais, gerou uma reação imediata: internautas passaram a inundar as redes com imagens geradas por IA, recriando seus próprios rótulos de “família em conserva”.

O ‘hype’ é curioso, mas a polêmica revela algo mais profundo. Nos últimos anos, a defesa da família se transformou em um dos pilares mais acionados do debate político-eleitoral brasileiro. Candidatos a vereador, deputado, senador, governador e presidente disputam entre si quem é o maior guardião dos valores familiares. A palavra virou bordão, slogan, legenda de post. Mas quando olhamos para os indicadores que dizem respeito ao cotidiano concreto das famílias brasileiras, o que encontramos?

Encontramos ruas sem asfalto. Unidades Básicas de Saúde sem médico. Escolas sem professor e sem merenda. Idosos sendo espoliados por golpistas. Mulheres sendo assassinadas dentro de suas próprias casas.

O saudoso ex-prefeito de Goiânia, Iris Rezende, repetia com convicção uma frase simples e poderosa: asfalto é saúde. Não era metáfora. Era uma política. Ele sabia que uma rua pavimentada significa menos poeira, menos lama, menos vetores de doenças respiratórias e parasitárias. Significa que a ambulância chega. Que a criança não falta à escola em dia de chuva. Que o trabalhador não perde o emprego por não conseguir sair de casa.

Defender a família brasileira começa por isso: por garantir que ela viva em dignidade física, num ambiente urbano que não adoeça seus membros antes do tempo.

Uma família não se sustenta apenas por laços afetivos. Ela precisa de estrutura. Precisa de um sistema de saúde que funcione, com consultas, exames, medicamentos e atendimento de qualidade, não um sistema que faça os mais pobres dependerem da sorte para conseguir um atendimento. Precisa de escolas que ensinem de verdade, com professores valorizados, infraestrutura adequada e perspectivas reais para os filhos.

Precisa, também, de uma rede de assistência social que ampare os mais vulneráveis: os idosos, as pessoas com deficiência, as mães solos, os que passam por crises. Isso não é paternalismo. É civilização. É o mínimo que uma sociedade organizada deve oferecer às suas famílias.

Há uma contradição que precisa ser dita sem rodeios: o índice de feminicídios no Brasil atingiu patamares recordes justamente no período em que a retórica da “defesa da família” passou a dominar o discurso público.

De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.492 feminicídios em 2024, batendo o recorde histórico de 2023. E os dados preliminares do ano passado apontam para uma nova marca vexatória. Defender a família sem criar mecanismos efetivos de proteção às mulheres é cinismo.

A destruição financeira das famílias corre na mesma proporção que as trends do último carnaval. No primeiro semestre de 2025, o país registrou quase 7 milhões de tentativas de fraude, quase 30% a mais que no ano anterior. O PIX, que deveria ser um facilitador, tornou-se o palco de 28 milhões de golpes anuais, atingindo principalmente os idosos, que compõem o grupo mais vulnerável: mais de 57% das pessoas acima de 50 anos relatam já terem sido alvos de criminosos.

Uma agenda real de defesa da família precisa incluir educação digital, políticas de proteção ao consumidor idoso, punição exemplar para golpistas e mecanismos ágeis de ressarcimento. A família que enfrenta a velhice junto não pode ver seus mais velhos serem saqueados sem que o Estado mova um dedo.

Família não é só sobreviver. É também viver. É poder ir com os filhos a um parque que tenha grama e brinquedo. É jogar futebol numa quadra pública que não esteja abandonada. É ter uma praça com banco, árvore, iluminação e segurança. É assistir a um jogo num ginásio da cidade.

A construção e manutenção de espaços públicos de lazer é uma política de família. Quando o Estado investe em praças, parques, ginásios e estádios acessíveis, investe no tecido social que une as gerações, que tira os jovens da vulnerabilidade e que dá às famílias um território compartilhado onde a vida acontece.

Uma família que não tem de onde tirar o sustento não consegue se manter unida por muito tempo. A pauta econômica é, portanto, uma pauta de família. Isso significa políticas ativas de geração de emprego, aumento real do salário mínimo, redução da jornada de trabalho e melhoria do transporte público para que pais e mães possam de fato estar presentes na criação dos filhos, e não apenas pagar as contas.

Significa também valorizar os servidores públicos que, diariamente, operam o sistema de saúde, educação, segurança e assistência social que sustenta as famílias mais vulneráveis. Um funcionalismo desvalorizado produz um serviço público degradado, e são as famílias que pagam esse preço.

Voltando à lata de conserva dos Acadêmicos de Niterói aos Acadêmicos dos Memes Digitais, seja qual for a leitura que se faça do enredo e da alegoria, o que o episódio escancara foi o quanto a família virou, de fato, um produto enlatado no debate político. Embalado, rotulado, pronto para consumo eleitoral.

Mas a verdadeira proteção às famílias está nas pautas que apontam para o desenvolvimento econômico e social do país. Família protegida é família com prato cheio, segurança em casa e na rua, escola de qualidade para os filhos e a certeza de que o futuro será melhor que o presente. Tudo o que passar disso é apenas barulho; o que fica, de fato, é a dignidade para viver.

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