Essa crônica conta a segunda parte de nossa aventura até Bragança, a primeira parte, está aqui.
Na tarde antes de irmos ao estádio, continuamos a perambular pela cidade. Foi quando encontramos o Clube Literário, prestes a completar 134 anos em Bragança. Um clube que mistura uma boemia espiritual à la Nelson Rodrigues com um toque paulista: bons petiscos, cerveja gelada, mesas ocupadas por amigos de longa data, alguns jovens, um casal em seu primeiro encontro — e a nossa mesa, formada por um padre e um filho apaixonado por cada instante vivido.
O Clube Literário tinha algo de mágico. Um espaço onde a história dialoga com a modernidade, um ambiente lúdico, mas profundamente intelectual.
Beto, como bom anfitrião, aproximou-se de nós, iniciou uma conversa e nos convidou a conhecer os espaços. Mostrou-nos uma bela exposição com imagens de pessoas que haviam vencido o câncer, as salas de jogos, a piscina olímpica, o salão de festas e um novo espaço recém-construído.
Depois de boas conversas com os integrantes e funcionários do clube, era hora de partir para o estádio.
Ao sairmos, o querido Beto nos deu uma dica: em Bragança, o povo é pacífico — podíamos andar com a camisa do time dos meus amores sem preocupação. Desejou-nos uma boa estadia, com hospitalidade e carinho, mas não sem antes nos desejar um belo fracasso no jogo. Nossa resposta foi imediata: já tínhamos ganhado o dia, independentemente do resultado. Foram muitas gargalhadas e boas energias.
Chegava, então, o momento mais esperado: ir para o estádio. A cidade inteira estava em movimento. Pensamos que era apenas por causa do jogo, mas havia mais um ingrediente — a Expo Bragança recebia Alok a poucos metros dali. Por um instante, me senti em um dia de jogo do Goiás, com a possibilidade de, depois, ainda seguir para uma festa como a Pecuária.
Entramos no estádio e, de repente, jornalistas se aproximaram do padre para uma entrevista ao vivo. Queriam uma explicação divina para o mundano. E veio a resposta: para ser divino, é preciso, antes, ser humano — e a paixão pelo River é uma das expressões mais puras do humano, algo que nasce conosco e se conecta à essência do cidadão latino-americano.
Inicialmente, ficamos no canto esquerdo, mas logo percebemos que dali não teríamos uma boa visão. O melhor espaço estava reservado para a torcida organizada — Los Borrachos del Tablón, representados pelo número 14. Foi então que o padre decidiu: assistiríamos o jogo no meio da torcida.
Era um sonho de infância que se materializava.
Era curioso ver o padre ali. Alguns respeitavam, outros brincavam, mas os líderes da torcida garantiram nosso espaço.
O jogo começou. A torcida era algo alucinante. Cada um tinha seu papel. Muitos assistiam de costas para o campo, revezando posições em um ritmo harmônico e quase coreografado. Bombos e tambores ditavam a intensidade, enquanto os líderes, de costas para o jogo, conduziam tudo.
O primeiro tempo foi morno.
No segundo, veio o caos: um erro de Martínez Quarta resultou em pênalti para o Bragantino. E então, de forma quase mística, aqueles que antes brincavam com o padre começaram a rezar. Pediam bênçãos, tocavam nele com fé, suplicavam pela salvação do River Plate.
O padre, concentrado, parecia alheio ao redor. Alguns se aproximavam e o tocavam, como se aquela fé pudesse atravessá-lo e chegar ao goleiro. Naquele instante, me veio à mente a passagem bíblica em que os enfermos tocavam as vestes de Jesus, na esperança de serem curados.
E o milagre veio.
Beltrán defendeu o pênalti.
Delírio absoluto.
O jogo seguiu, e eu já não estava apenas assistindo — estava vivendo. Uma energia surreal tomou conta de mim. Por alguns momentos, o mundo deixou de existir. Só havia o jogo, a música, a paixão. As canções da torcida se tornaram as melodias mais bonitas que eu já havia escutado.
O empate parecia certo. O Bragantino jogava com um a menos após a expulsão de Vinícius. O árbitro deu oito minutos de acréscimo.
E então, o improvável aconteceu.
Um cruzamento de Silva, um jovem em seu primeiro jogo oficial, encontrou a cabeça de Martínez Quarta. E o carnaval, em pleno solo paulista, era da torcida do River Plate.
O inimaginável se concretizou.
Vitória do visitante — talvez não merecida, mas intensamente celebrada por uma torcida apaixonada.
Ali, eu cumpri um sonho.
Assisti a um jogo no meio da torcida, ao lado do meu pai. Mais do que a vitória, foi um reencontro comigo mesmo. Uma pausa na rotina para revisitar minha infância, minha família, minhas origens. O clube que ajudou a formar quem eu sou — que transformou uma criança inquieta em alguém mais paciente e compreensivo. Isso devo à minha família e aos meus professores.
Na saída do estádio, um líder da torcida se aproximou do padre e disse:
— A partir de hoje, eu acredito em Deus. Obrigado, padre.
Fé, família, paixão e experiência.
No fim, tudo isso se mistura.
Porque o ser humano é, acima de tudo, um todo.
