O Brasil perdeu um de seus maiores cronistas. Luis Fernando Verissimo, de 88 anos, morreu na madrugada deste sábado (30), em Porto Alegre, em decorrência de complicações de uma pneumonia. Internado desde 11 de agosto na UTI do Hospital Moinhos de Vento, o escritor não resistiu.
Casado com Lúcia Helena Massa, Verissimo deixa três filhos e dois netos. A cerimônia de despedida ocorrerá a partir das 12h, no Salão Nobre Julio de Castilhos, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.
Filho de Érico Verissimo, autor de O Tempo e o Vento, Luis Fernando nasceu em 26 de setembro de 1936, em Porto Alegre. Ainda na infância, mudou-se para os Estados Unidos, onde o pai lecionava literatura brasileira em universidades da Califórnia. Foi lá que descobriu o jazz, paixão que o acompanhou por toda a vida, junto com o saxofone.
De volta ao Brasil, começou a carreira em 1966 como revisor no jornal Zero Hora. Mais tarde, no Rio de Janeiro, traduziu textos e se aproximou da literatura. Publicou seu primeiro livro, O Popular, em 1973, desde então, construiu uma obra que ultrapassa 70 títulos e 5,6 milhões de exemplares vendidos, entre crônicas, romances, quadrinhos e contos.
Entre seus personagens mais icônicos estão Ed Mort, a Velhinha de Taubaté e o Analista de Bagé. Também criou a tira As Cobras, publicada nos anos 1970. Seu talento extrapolou o impresso: roteirizou o humorístico TV Pirata e inspirou a série Comédias da Vida Privada, exibida pela TV Globo entre 1995 e 1997.
Humor e crítica
Verissimo se destacou pelo humor irônico e pela crítica social embutida em suas crônicas. Colunista assíduo de Zero Hora, O Estado de S. Paulo e O Globo, ele escrevia de sua casa no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, no mesmo imóvel comprado pelo pai em 1941.
Na rotina, seguia disciplina quase rígida. Escrevia pela manhã, parava apenas para o almoço em família, assistia ao Jornal na TV e, à noite, mergulhava no jazz. Guardava discos, CDs e seu saxofone em um espaço próprio, enquanto o escritório de Érico seguia preservado como memória.
Apesar da timidez, que o deixava desconfortável em entrevistas, admitia que na crônica podia se libertar:
“A gente pode ser o que quiser escrevendo uma crônica”.
Saúde e últimas reflexões
Nos últimos anos, enfrentou Parkinson, problemas cardíacos e as sequelas de um AVC sofrido em 2021. Em 2016, precisou implantar um marcapasso. Mesmo assim, continuava a refletir sobre a vida com humor ácido. Em entrevista, afirmou:
“A vida é uma grande piada. Acontece tudo isso com a gente, e a gente morre. Que piada de mau gosto”.
Ao completar 80 anos, ironizou a quantidade de homenagens recebidas:
“Estou pensando em fazer 80 anos mais vezes”.
Paixão pelo Inter
Apaixonado pelo Internacional, escreveu Internacional, Autobiografia de uma Paixão. Lembrava com carinho o primeiro Gre-Nal que assistiu, no Estádio dos Eucaliptos, descrevendo a sensação de estar diante das cores, da respiração dos jogadores e do cheiro da grama.
Cobriu Copas do Mundo desde 1986 e registrou em crônicas alegrias e decepções. Sobre o título mundial do Inter em 2006, eternizou o gol de Adriano Gabiru:
“Foi um momento de sonho. Antes do jogo, o sentimento era: se perder de pouco, está bom”.
Luis Fernando Verissimo deixa uma obra marcada por humor, crítica e música, mas também por timidez e afeto. Queria ser lembrado por seus livros e, quem sabe, por um blues bem tocado ao saxofone.