Na disputa para senador, tudo tem a ver com segundo voto, embora nenhum candidato saiba exatamente como pedir ao eleitor o seu primeiro ou o segundo voto.
O eleitor, dizem as pesquisas, não está ligado na disputa pelo Senado. Muito menos sabe que tem que escolher dois nomes este ano.
Mas vamos chegar lá. Antes, um pouco de história dos últimos dias e dramas de campanha em Goiás.
Em um vídeo de campanha, o governador e candidato à reeleição Daniel Vilela (MDB) é mostrado ao lado da candidata a senadora Gracinha Caiado (UB). Semanas atrás.
Ambos estão sorrindo, dançantes, unidos pela mensagem de todos por um e uma senadora para todos. Passados alguns segundos, Daniel diz, quase gritando: “É Gracinha no Senado.”
Não há qualquer imagem ou menção a Vanderlan Cardoso (PSD), Zacharias Calil (MDB) e Gustavo Mendanha (PRD), os outros três candidatos a senador da base governista.
Só os dois, Daniel e a Gracinha, em cena no post de marketing explícito no perfil do governador.
Guarde isso.
CRISE
Dia 15, em Aparecida de Goiânia, em ato de campanha para marcar o número 15 de Daniel Vilela governador, a cena era outra.
Juntos, os quatro candidatos governistas. Ao lado, o ex-governador e candidato a presidente Ronaldo Caiado, refeito da internação por pneumonia.
O post refletia o início da solução da crise. O comício, um ato concreto de construção do apaziguamento.
A crise opôs especialmente Gracinha e Mendanha, e mexeu com os ânimos de Daniel, Caiado e da base governista, em clima de torcida.
Ela foi pra cima dele acusando-o de agir contra sua candidatura. Ele negou qualquer movimento nesse sentido, manteve o curso de sua campanha e tratou de reconstruir a relação nos bastidores e com gestos públicos.
No evento de Aparecida de Goiânia, já estavam os quatro juntos. E, no discurso, Gustavo Mendanha fez mais um aceno de paz. Ao discursar, elogiou e pediu voto para Gracinha. Não pediu para ele.
Com o gesto, Mendanha entrou na estratégia de Daniel Vilela, que se esforça para mostrar que está engajado na missão de eleger Gracinha senadora.
A crise foi intensa e não é que tenha acabado. Está administrada. O foco é na vitória, e divisão de forças chama derrota.
Dias antes, Gustavo Mendanha tinha ficado fora de um palanque em que estavam Gracinha e Ronaldo Caiado.
Quando Caiado adoeceu, ele pediu orações por sua recuperação durante entrevista a diversos veículos.
E já vinha evitando embate com Vanderlan, que reagiu mal ao anúncio de sua candidatura, no final da pré-campanha.
Mendanha explicou sua disposição, ao conversar com jornalistas durante esse processo. “De lá para cá, pode vir crítica; de cá para lá, nunca.”
Zacharias e Vanderlan andavam distantes, tocando campanha sem esperar nada do governo. E sem romper. Entenderam que jamais serão prioridade para Caiado e Daniel.
Semana passada, Vanderlan também fez gestos. Durante sabatina na Rádio Bandeirantes Goiânia, no ar, pediu voto para Gracinha. E para ele. Como Mendanha.
Minutos depois, na rádio, Gracinha foi entrevistada. Elogiou Vanderlan e Zacharias. Não citou Mendanha. Mas evitou criticá-lo abertamente, como vinha fazendo. Um passo.
No dia 15, estavam todos juntos.
DANIEL EM AÇÃO
Daniel Vilela procura mostrar serviço em favor de Gracinha, para não gerar outra crise, maior, dele com Caiado.
O gesto de mostrar preferência por Gracinha é de gratidão e de retribuição estratégica. E ação de campanha direcionada, com mensagem direta aos aliados.
Todos sabem: a estrela de seus programas eleitorais, e base de seu discurso de campanha, é Ronaldo Caiado e seus dois governos. A sucessão segura é o mote da reeleição.
Nesse jogo de interesses cruzados, a estrutura governista se move em direção a Gracinha, deixando livre para os demais candidatos o espaço do outro voto – o segundo, por suposição e determinação interna.
A movimentação recompõe a base, estanca a crise, posiciona o grupo na reta final. No entanto, a crise abriu a guarda para um novo nome na disputa pelo voto governista: Gustavo Gayer (PL).
GU-GU
No embalo do clima de torcida que virou o embate entre Gracinha e Mendanha, foi criado o Movimento GU-GU (juntando os dois Gustavos).
Puxado por apoiadores dos dois no meio evangélico, o movimento foi outro elemento a incomodar Caiado e Gracinha.
A dobradinha Mendanha-Gayer não é oficial. Os dois negaram formalidade. Mas é fato, alastrou-se. Um negócio natural e bom para os dois.
Mendanha tem entrada fácil no bolsonarismo. Com aval de Gayer, passou a ter mais acolhida.
Em contrapartida, a aceitação de Mendanha na base do governo alcança o eleitorado que não quer votar em Gracinha. Abre portas para Gayer.
Uma conta que é feita:
Gayer tem o segundo voto de Mendanha entre governistas. Mendanha tem o segundo voto de Gayer entre os bolsonaristas.
Há contrariedade no bolsonarismo goiano em relação a Caiado, com extensão a Gracinha.
A relação já não era boa desde a eleição passada para prefeito de Goiânia. O candidato de Caiado derrotou o de Jair Bolsonaro. A campanha foi dura.
Piorou quando ele, como candidato a presidente, passou a criticar Flávio Bolsonaro, candidato do PL.
A bronca foi captada em pesquisas recentes de lado a lado. E nas realizadas por adversários.
Os adversários aproveitaram para tensionar mais a refrega Gracinha-Mendanha nas redes sociais, conversas e discursos.
A situação de Vanderlan no bolsonarismo é mais grave. Ele foi o responsável por quase fazer Gayer perder o mandato de deputado, com ação no Congresso. Birra grande.
Zacharias é o candidato sem aresta com ninguém. Tem acesso aos espaços eleitorais do governo e do bolsonarismo, sem veto e sem necessidade de aval.
Está sozinho na caminhada, arriscando a sorte na simpatia e no impulso da celebridade como separador de siameses – embora o currículo seja maior.
Estar sozinho é o bem e o mal para Zacharias, pois tanto pode ser positivo e transformá-lo em surpresa, quanto fazê-lo perder lastro como alternativa viável.
Dentro da base governista, Zacharias não se firmou como escolha natural, assim como o de Vanderlan nunca foi.
Nenhum deles ganhou o sentimento de segundo voto governista. É esse vácuo que Mendanha está ocupando.
E o espaço ficou maior com a crise que o colocou com Gracinha no centro das conversas.
Neste momento, a luta de Daniel, Caiado e dela própria é para retomar o posto de primeiro voto e a aura de missão de todos. Tem a ver com reposicionamento.
Isso fez com que a disputa pelo Senado ficasse centrada no alinhamento de forças Gracinha-Mendanha-Gayer.
QUEM GANHA?
Gracinha, Mendanha e Gayer polarizam as atenções e imprimem ações que indicam favoritismo.
Trabalham para consolidar essa ideia e transformá-la em fato eleitoral faltando duas semanas para a eleição.
É nessa fase que os votos para o Senado se consolidam, na visão de estrategistas e daqueles acostumados a tocar campanhas majoritárias. O número de indecisos comprova.
Uma visão nos bastidores é de que sairão daí os dois próximos senadores de Goiás.
SEGUNDO VOTO
Gracinha vinha aumentando as ações de rua. Intensificando os contatos com prefeitos.
A internação de Ronaldo Caiado com diagnóstico de pneumonia interrompeu. Ao se recuperar, foi sintomático Caiado baixar em Goiás para pedir voto para ela.
A sua base de aliados entendeu a mensagem da necessidade e do comando.
Gustavo Mendanha age em outra frente. Está com agenda tomada por contatos no interior e pela articulação com vereadores.
Já se entendeu com mais de mil, na contagem de sua assessoria. A opção de se conectar com vereadores é escolha pragmática.
O vereador é o primeiro contato da população. E geralmente fica à margem das prioridades dos coordenadores e candidatos majoritários.
Mendanha puxou essa massa, dando protagonismo a ela. Criou um contraponto a Gracinha sem precisar fazer enfrentamento nesse campo político.
Os responsáveis pela coordenação da campanha dela são prefeitos: os presidentes da Associação Goiana dos Municípios (AGM), José Délio Jr., de Hidrolândia, e da Federação Goiana dos Municípios, Paulo Vitor Avelar, de Jaraguá.
Gracinha tem os líderes dos prefeitos. Mendanha tem os vereadores.
Gracinha tem a base governista, sem associação direta com outro candidato.
Mendanha tem entrada na base governista e no bolsonarismo. E a parceria natural com Gayer.
Gracinha e Gayer polarizam nas pesquisas recentes. Já estiveram mais distantes.
Disputam o primeiro voto de polos opostos, indicam pesquisas de comitês. São adversários diretos, na percepção do eleitor.
Mendanha saiu do nada e está próximo dos dois, em empate técnico com os outros.
Corre na disputa natural pelo segundo voto de um lado, e como opção de segundo voto do outro sem precisar falar isso.
NAS RUAS
A crise dentro do governo entre os candidatos ao Senado não acabou.
A solução é que saiu do palanque e foi para as ruas, em direção acelerada às urnas.
Os candidatos dos outros partidos não aparecem em levantamentos com chance. Figuram.
Com cerca de 80% sem voto definido, as possibilidades são amplas. As vagas de senador estão abertas.
