Nem todos os eleitores acompanham uma eleição com a mesma atenção. Alguns formam suas preferências cedo; outros chegam à disputa quando a decisão já não pode mais ser adiada. Essa diferença cria também um problema para quem tenta medir a opinião pública.
Toda pesquisa eleitoral enfrenta uma pergunta anterior à intenção de voto: quem aceita responder?
Antes que um instituto consiga registrar preferência por candidato, avaliação de governo ou probabilidade de comparecimento, precisa encontrar alguém disposto a atender ao telefone, continuar numa URA, preencher um questionário digital ou conversar com um entrevistador.
Há algo simples, mas importante, nesse processo. A pesquisa pretende medir opiniões e comportamentos. Antes disso, depende de outro comportamento: aceitar participar da própria pesquisa.
Isso ganha relevância quando parte do eleitorado dedica pouca atenção à política. Quem acompanha a eleição intensamente possui opiniões mais disponíveis e talvez veja algum sentido em falar sobre candidatos. O eleitor cansado, ocupado ou simplesmente pouco interessado naquele momento pode fazer algo muito mais simples: recusar.
Daí surge uma hipótese importante para 2026. O mesmo eleitor que entra tarde na eleição pode ser justamente aquele que temos maior dificuldade de observar antes que ele entre nela.
Isso não significa que eleitores de baixa atenção necessariamente recusem pesquisas em proporção suficiente para distorcer resultados. Também não significa que uma pesquisa com muitas recusas esteja errada. A pergunta é mais precisa: o que acontece se a disposição para participar estiver relacionada às características políticas que queremos medir?
Recusa não é sinônimo de viés
Não resposta e nonresponse bias1 não são a mesma coisa. Uma pesquisa pode enfrentar muitas recusas e ainda produzir boas estimativas. O problema aparece se quem aceita e quem recusa forem sistematicamente diferentes em aspectos relevantes para a estimativa eleitoral.
Groves e Peytcheva mostraram a importância dessa distinção numa meta-análise publicada em 2008. Ao reunir 59 estudos metodológicos, encontraram uma relação muito menos mecânica entre taxa de resposta e viés do que a intuição costuma sugerir. O tamanho da não resposta, por si só, não informa o tamanho do nonresponse bias.
Isso impede uma crítica fácil aos institutos. Muitas recusas não significam automaticamente números “maquiados”. O problema surge quando a disposição para responder está relacionada ao fenômeno que queremos observar. Se interesse político, por exemplo, aumentar a probabilidade de participação numa pesquisa e estiver também associado à propensão a votar ou à estabilidade da preferência, a recusa passa a ter significado substantivo.
Participar da pesquisa também é comportamento
Há boas razões para investigar essa possibilidade sem transformá-la em conclusão antecipada. Participar de uma pesquisa exige cooperação. A pessoa precisa considerar que vale a pena dedicar alguns minutos à interação. Em pesquisas políticas, o próprio interesse pelo tema pode pesar nessa decisão.
Isso não significa que todo cidadão atento responderá ou que todo eleitor de baixa atenção recusará. Pessoas muito politizadas podem desconfiar de pesquisas. Pessoas pouco interessadas podem responder por curiosidade, educação ou simples conveniência. Se houver relação entre atenção política e participação, ela será probabilística.
Sciarini e Goldberg encontraram evidências de que envolvimento político e participação em surveys podem estar relacionados em determinados contextos. Em estudo sobre pesquisas pós-eleitorais, identificaram uma dupla origem para o conhecido turnout bias2: eleitores que efetivamente votaram estavam sobrerrepresentados entre os respondentes, enquanto parte dos não votantes entrevistados relatava ter comparecido.
Em trabalho posterior, os autores distinguiram ainda dois momentos da não resposta: conseguir contato e obter cooperação. Não localizar alguém e localizar uma pessoa que se recusa a participar são mecanismos diferentes e podem selecionar perfis diferentes.
A pergunta deixa então de ser apenas quantas pessoas responderam. Passa a ser quem decidiu conversar conosco.Inscreva-se
O que a ponderação consegue corrigir
Pesquisas utilizam desenho amostral e ponderação para aproximar a amostra da população. Idade, sexo, escolaridade, região e outras características conhecidas são fundamentais nesse processo.
Mas dois indivíduos demograficamente muito parecidos podem estar em momentos políticos bastante diferentes. Um acompanha a eleição todos os dias e possui preferência consolidada. Outro evita o assunto e ainda não começou a pensar seriamente no voto.
Se o primeiro aceitar responder com maior frequência, reproduzir corretamente a composição demográfica da população não garante que a distribuição de interesse político entre respondentes seja idêntica à existente entre aqueles que recusaram.
A ponderação não falha por isso. Apenas enfrenta um limite conhecido: é mais fácil corrigir diferenças para as quais dispomos de boas informações auxiliares.
A pergunta relevante passa a ser: dentro de cada grupo que conseguimos representar demograficamente, quem aceitou conversar conosco?
Cada método observa por uma porta diferente
Telefone, URA, internet e entrevistas presenciais impõem condições diferentes de cobertura, contato, cooperação e recusa. Atender uma ligação desconhecida, permanecer numa interação automatizada, concluir um formulário digital ou receber um entrevistador são comportamentos distintos.
A AAPOR3 (American Association for Public Opinion Research) distingue taxas de resposta, cooperação, recusa e contato justamente porque essas etapas não são equivalentes.
Para nosso argumento, a pergunta importante não é qual método é superior em abstrato, mas que tipo de eleitor cada método torna mais fácil ou mais difícil de observar?
A resposta depende do desenho concreto de cada levantamento. Mudar de tecnologia altera as condições pelas quais as pessoas entram ou deixam de entrar na pesquisa. Não elimina, por si só, o problema da seleção.
O eleitor silencioso e a estabilidade do voto
Existe ainda uma dimensão temporal. O eleitor menos disposto a responder pode não apenas prestar menos atenção à campanha. Sua preferência também pode estar menos consolidada.
Duas pessoas podem mencionar o mesmo candidato e, ainda assim, estar em situações bastante diferentes. Uma decidiu há meses e dificilmente mudará. Outra oferece uma resposta naquele momento, mas demonstra pouca certeza e quase nenhum acompanhamento da disputa.
Por isso, intenção de voto e estabilidade da preferência não são a mesma coisa.
A distinção também importa quando comparamos uma pesquisa feita semanas antes da eleição com o resultado final. A diferença pode decorrer de problemas de representação ou mensuração, mas pode igualmente refletir mudança real de preferência entre os dois momentos. Uma pesquisa pode descrever razoavelmente agosto e não reproduzir outubro porque parte do eleitorado ainda não havia concluído sua decisão.
Quem responde e quem circula informação
Interesse político, disposição para responder surveys e capacidade de influência interpessoal não são a mesma coisa. Ainda assim, podem se sobrepor parcialmente.
Se isso ocorrer, alguns dos indivíduos mais fáceis de observar também poderão estar mais presentes nas conversas pelas quais informações políticas circulam. Isso não transforma um eventual viés em capacidade preditiva. Uma amostra que não represente adequadamente a população continua apresentando um problema de inferência.
A questão é outra. Atenção política pode ajudar a explicar não apenas quem responde, mas também o grau de certeza e estruturação das opiniões expressas. Zaller mostrou, em outro contexto, como diferenças de consciência política influenciam a recepção de sinais e a expressão de opiniões em surveys.
Por isso, além da intenção de voto, pode ser útil observar certeza, estabilidade da escolha, momento da decisão e atenção dedicada à campanha. Essas medidas não resolvem a não resposta, mas ajudam a distinguir uma preferência consolidada de outra ainda provisória.
O que não sabemos sobre quem não responde
Pesquisas eleitorais continuarão sendo instrumentos indispensáveis para compreender a opinião pública. Reconhecer seus limites não significa desqualificá-las. Significa evitar tanto a confiança ingênua quanto a crítica simplista.
Uma taxa baixa de resposta não prova viés. Uma amostra ponderada não garante a ausência dele. Um método presencial não elimina automaticamente a seleção, assim como uma pesquisa digital não é inferior apenas por ser digital.
Para 2026, porém, há uma pergunta adicional. Se parte do eleitorado permanece distante da política durante boa parte da campanha, talvez a dificuldade não seja apenas descobrir qual candidato prefere. Pode ser conseguir ouvi-lo antes que ele próprio considere importante ter uma preferência consolidada.
O mesmo eleitor que chega tarde à eleição pode ser justamente aquele que temos maior dificuldade de observar enquanto sua escolha permanece aberta.
Se for assim, o desafio das pesquisas não estará apenas em representar corretamente aqueles que aceitam falar.
Estará também em compreender o que ainda não sabemos sobre aqueles que permanecem fora da conversa.
Referências e leituras
AMERICAN ASSOCIATION FOR PUBLIC OPINION RESEARCH. 2023 Standard Definitions: Final Dispositions of Case Codes and Outcome Rates for Surveys. 10th ed. AAPOR, 2023.
GROVES, Robert M.; PEYTCHEVA, Emilia. “The Impact of Nonresponse Rates on Nonresponse Bias: A Meta-Analysis”. Public Opinion Quarterly, v. 72, n. 2, p. 167–189, 2008.
SCIARINI, Pascal; GOLDBERG, Andreas C. “Turnout Bias in Postelection Surveys: Political Involvement, Survey Participation, and Vote Overreporting”. Journal of Survey Statistics and Methodology, v. 4, n. 1, p. 110–137, 2016.
SCIARINI, Pascal; GOLDBERG, Andreas C. “Lost on the Way: Nonresponse and its Influence on Turnout Bias in Postelection Surveys”. International Journal of Public Opinion Research, v. 29, n. 2, p. 291–315, 2017.
ZALLER, John. “Political Awareness, Elite Opinion Leadership, and the Mass Survey Response”. Social Cognition, v. 8, n. 1, p. 125–153, 1990.
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Nonresponse bias (viés de não resposta): ocorre quando os indivíduos que participam de uma pesquisa diferem sistematicamente daqueles que não respondem em características relevantes para aquilo que se pretende estimar. Uma taxa elevada de não resposta não implica, por si só, viés elevado. O problema surge quando a probabilidade de participar da pesquisa está relacionada a essas características, fazendo com que os respondentes não representem adequadamente os não respondentes quanto à variável de interesse. Em uma pesquisa eleitoral, por exemplo, isso pode ocorrer se a disposição para responder estiver associada ao interesse por política, à propensão a votar ou à própria preferência eleitoral.
Turnout bias (viés de comparecimento eleitoral): ocorre quando uma pesquisa representa de forma distorcida a proporção ou as características dos eleitores que efetivamente compareceram às urnas. Em pesquisas pós-eleitorais, é comum que o comparecimento declarado seja superior ao registrado oficialmente. Esse viés pode resultar tanto da maior participação de votantes na própria pesquisa quanto do fato de alguns não votantes declararem ter votado.
AAPOR (American Association for Public Opinion Research ou em português Associação Americana para Pesquisa de Opinião Pública) é uma entidade profissional dedicada ao desenvolvimento e ao aprimoramento metodológico das pesquisas de opinião pública. Entre seus principais documentos de referência estão as Definições Padronizadas, que estabelecem critérios para classificação dos resultados das entrevistas e para o cálculo e a divulgação de taxas de resposta, cooperação, recusa e contato.
