Há uma frase repetida com certo desprezo: “o brasileiro não sabe votar”. Ela aparece depois de quase toda eleição, geralmente dita por quem perdeu, por quem se decepcionou ou por quem olha para a política como se o eleitor fosse o único culpado pelos fracassos do país.
Mas essa frase é injusta e simplista. O eleitor brasileiro não é um ser politicamente inferior. Ele é o resultado de uma história marcada por desigualdade, clientelismo, promessas quebradas, baixa educação política, sobrevivência econômica e desconfiança permanente das instituições.
O Brasil tem hoje mais de 155 milhões de eleitores aptos a votar, segundo dados recentes do TSE. É uma democracia gigantesca, diversa, desigual e profundamente regionalizada.
Por isso, falar em “o eleitor brasileiro” como se fosse um bloco único é sempre perigoso. Há o eleitor urbano, o rural, o religioso, o ideológico, o pragmático, o revoltado, o dependente de políticas públicas, o empreendedor cansado de impostos, o jovem descrente, o idoso fiel a antigas referências. O que une muitos deles não é a ignorância. É o desencanto.
O brasileiro vota, muitas vezes, menos por convicção programática e mais por esperança, memória, raiva ou proteção. Vota em quem parece cuidar, em quem parece forte, em quem fala sua língua, em quem promete resolver aquilo que o Estado nunca resolveu. Daí nasce o personalismo.
No Brasil, os partidos são fracos na alma popular. Pessoas valem mais que legendas. O eleitor se liga ao nome, ao rosto, à história, ao favor recebido, à lembrança de uma obra, ao gesto simbólico. Isso não significa que ele seja “péssimo eleitor”. Significa que ele aprendeu a votar dentro das condições que a política lhe ofereceu.
Quando o Estado falha, o eleitor procura salvadores. Quando os partidos não educam, o eleitor escolhe por afeto. Quando as instituições decepcionam, ele se agarra a quem transmite autoridade. Quando a vida aperta, o voto também passa a ser instrumento de sobrevivência.
Há, sim, contradições. O mesmo eleitor que reclama da corrupção pode votar em figuras suspeitas. O mesmo eleitor que pede renovação pode reconduzir velhas práticas. O mesmo eleitor que critica privilégios pode apoiar candidatos que vivem deles. Mas essas contradições não pertencem apenas ao povo. Elas pertencem ao próprio sistema político brasileiro.
O eleitor é, muitas vezes, cobrado por uma pureza que a elite política nunca teve. Pesquisas de opinião mostram que a democracia ainda é a preferida pela maioria dos brasileiros. Levantamento do Datafolha divulgado recentemente, apontou que 74% consideravam a democracia sempre melhor que qualquer outra forma de governo.
Isso revela algo importante: apesar de todos os erros, frustrações e manipulações, o eleitor brasileiro ainda guarda uma intuição democrática. Ele pode se irritar com a política, mas não desistiu completamente dela.
O problema é que essa intuição convive com desinformação, radicalização, baixa confiança em instituições e excesso de marketing eleitoral. A disputa deixou de ser apenas sobre propostas. Passou a ser também sobre medo, identidade, religião, costumes, ressentimento e pertencimento.
O eleitor brasileiro, portanto, não é simplesmente mal informado. Ele é disputado diariamente por narrativas. Defini-lo como “ruim” é fácil. Difícil é reconhecer que ele vota em meio a pressões sociais, econômicas, emocionais e culturais que poucos analistas consideram.
No fundo, o eleitor brasileiro é mais espelho do que causa. Ele reflete o país que temos: desigual, emotivo, desconfiado, solidário, contraditório, esperançoso e cansado.
Se escolher mal em muitos momentos, também é porque lhe oferecem pouco. Pouco debate sério, pouca formação cidadã, pouca transparência, pouca coerência partidária e muitos atalhos sedutores.
A pergunta, talvez, não seja se o brasileiro sabe votar. A pergunta mais honesta é: que tipo de política o Brasil tem oferecido ao seu eleitor? Sim, porque nenhum povo vota no vazio. O voto nasce da vida e a vida do brasileiro, quase sempre, cobra urgência antes de cobrar ideologia.
