Uma coisa é a teoria, a vontade, o ideal na política. Outra, a barbárie e o cadafalso das campanhas eleitorais.
Sempre houve cobrança muito grande para Ana Paula Rezende entrar para a política, disputar mandato. Ela adiou ao máximo a decisão. Entendia que não era o momento, como em 2024, pra ser candidata a prefeita ou a vice de Sandro Mabel (União Brasil).
Em novembro, Ana Paula enfim levou o seu sim ao governador Ronaldo Caiado (PSD) e ao vice, Daniel Vilela (MDB). Seu objetivo: o Senado.
Sem espaço na chapa desenhada por Caiado e Daniel – com Gracinha Caiado (UB) e Gustavo Gayer (PL) –, passou a considerar alternativas.
Na sexta-feira, 20, anunciou sua decisão: sair do MDB de Daniel, Maguito Vilela e seus pais, Iris Rezende e Iris de Araújo, e ir para o PL de Wilder Morais e Jair Bolsonaro.
Ana Paula Rezende está fazendo o caminho dela. Não é o de Iris pai, nem o de Iris mãe. O DNA importa, mas não tira o seu discernimento, a sua personalidade.
Escolha dela é isso: dela. De mais ninguém. Os pais são História de Goiás e orgulho de família.
Erra ao se afastar do legado do partido do pai? Acerta ao se posicionar diante do que insistiu em enfatizar: falta de espaço no MDB? Decepciona? Mostra articulação e tino? Dá o troco? Traiu o governador Ronaldo Caiado? Ou foi traída? O tempo é o único que sabe a resposta. A percepção das pessoas na guerra de narrativas já deflagrada será decisivo.
As críticas à escolha dela são legítimas. Fazem parte do embate político discordar, opor-se, debater. O palanque é o contraditório. Cabe a ela convencer.
Também faz parte da guerra a baixaria. E aqui o ponto fundamental: faz parte como realidade bruta, e não como ideal de campanha e disputa. A ver, mais ainda: como ela vai reagir e se posicionar. Lamentar e reclamar não resolvem a questão no campo de batalha. Ter razão não ganha eleição. Uma das leis do pragmatismo político.
Ataques abaixo da cintura moral, agressões desmedidas, chute nos olhos, tudo isso ocorre. Lado B das eleições. Infelizmente, digo eu. Inevitável, acrescento, vencido na (des)ilusão.
Quanto mais acirrada a eleição, mais dura e sangrenta se torna. Morem-se no exemplo recente de Goiânia e Aparecida de Goiânia. Bolsonarismo e caiadismo foram às últimas inconsequências.
Que o espírito público não sucumba ao mesquinho, vil e desprezível embate rasteiro dos campos de guerra eleitoral – sonho de verão. Que o tom da fogueira eleitoral em Goiás agora será de altíssimas labaredas, nem é preciso ser vidente para antecipar. É pegar ou largar.
Quem ataca sem escrúpulos, com os fins justificando os meios, tem propósito claro, sempre. E o fará sem tergiversação se este for o foco para a meta traçada. Destruir reputação e vencer nas urnas custe o que custar são caminhos fáceis para qualquer marqueteiro e inarredáveis para todos que não admitem menos do que amarrar o poder às próprias mãos.
Ana Paula Rezende está à campo. Vai jogar e vai apanhar. Vai ser testada, julgada e condenada a perder ou ganhar. Vai sobreviver? O que ela vai fazer de agora em diante é que importa.
Também importa saber o que vão fazer, com o fato consumado de Wilder Morais/Ana Paula, os demais: Caiado, Daniel Vilela, Marconi Perillo (PSDB), o PT, quem mais se apresentar. Porque ação e reação são naturalmente elos de uma mesma eleição.
Marconi será candidato a senador do lado de Wilder, também abandonando Caiado e Daniel? Vanderlan Cardoso (PSD), como fica? Junta-se ao grupo bolsonarista? E Alexandre Baldy com o PP? E Gustavo Gayer? E Gustavo Mendanha (PSD)? E Zacharias Calil (sem partido)? E Adriano Rocha Lima (UB)? E José Mário Schreiner (MDB)? E Luiz do Carmo (MDB)? E Bruno Peixoto (PRD)? E…
As especulações são várias, e crescem nos bastidores. Por uma razão elementar: a hora é de negociar. Hora de negociar chapas de candidatos a deputado federal. Hora de definir nomes para o Senado e vice em outras chapas. Só o que foi anunciado é que Ana Paula será a vice de Wilder.
E depois virá outro momento para novas negociações: as convenções, em julho/agosto. Até lá, tudo pode naquele que se fortalece. No meio do caminho, dois fatos relevantes inegáveis: A) posse de Daniel Vilela como governador; B) definição da candidatura de Caiado a presidente da República, com possibilidade de que ele dispute outro cargo, em Goiás.
Voltamos ao ponto. À direita e à esquerda, a disputa de narrativas não será fácil pra ninguém. E o céu será o limite. Ou Plutão.
Quer que seja mais didático? A eleição deste ano em Goiás escalará vulcões e desafiará abismos. Não há espaço para fracos. Nem para os puros.
Não haverá, principalmente, lugar para amadores. Quem não se organizar; quem preferir o choro e vela no muro das lamentações; quem não tiver estômago, que fique em casa. Mas lembre-se: TV e redes sociais são igualmente campos minados. Não adianta correr.
Como está o cenário hoje? Ninguém, não estica, sabe. Os fatos recentes mexeram em tudo. Agora, só tempo e pesquisa vão mostrar o que resta e o que há de ser feito pelos generais de plantão.
Não é como está que decidirá a eleição. É o que cada um vai fazer com o que tem em mãos que definirá o curso dos acontecimentos.
Habilidade. Estratégia. Inteligência política. Astúcia. Estômago de urna. Quem tem mais e melhor, leva.
Poder não se conquista; toma-se.







