A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu nesta sexta-feira (20) que o presidente Donald Trump extrapolou sua autoridade ao impor um amplo aumento de tarifas sobre importações de quase todos os parceiros comerciais dos EUA.
Por seis votos a três, os ministros afirmaram que a lei utilizada pelo governo não autoriza o presidente a criar tarifas por iniciativa própria. O presidente da Corte, John Roberts, relatou o caso. Clarence Thomas, Samuel Alito e Brett Kavanaugh votaram contra a maioria.
No voto vencedor, Roberts declarou que Trump precisa apresentar “autorização clara do Congresso” para justificar o tarifaço e citou precedentes da própria Corte.
Empresas afetadas pelas tarifas e 12 estados americanos, em sua maioria governados por democratas, protocolaram a ação para contestar o uso da lei como base para impostos de importação unilaterais.
Os ministros fixaram limites ao poder presidencial na política comercial e indicaram possíveis impactos sobre medidas direcionadas a outros países, incluindo o Brasil.
A decisão concentrou efeitos nas chamadas tarifas recíprocas, núcleo da estratégia comercial do governo. As taxas já existentes sobre aço, alumínio e fentanil continuam em vigor.
O processo começou em meados de 2025 e chegou ao julgamento definitivo nesta semana. Mesmo assim, o entendimento não elimina totalmente a possibilidade de novas tarifas.
O que acontece agora
Na prática, a Corte anulou tarifas iguais ou superiores a 10% aplicadas desde abril de 2025 à maioria dos parceiros comerciais dos Estados Unidos.
As tarifas específicas sobre aço e alumínio permanecem válidas porque o governo utilizou a Seção 232 do Trade Expansion Act de 1962, voltada à segurança nacional.
A decisão pode forçar mudanças relevantes na estratégia comercial de Trump e abrir espaço para devolução parcial da arrecadação obtida com os impostos.
Economistas do Penn-Wharton Budget Model estimaram valores superiores a US$ 175 bilhões (cerca de R$ 912,5 bilhões).
Mesmo com o revés, o governo já sinalizou que pretende buscar novas bases legais para impor tarifas, incluindo argumentos ligados à segurança nacional e a práticas comerciais consideradas desleais.
Analistas do Goldman Sachs, do Deutsche Bank e da Panmure Liberum apontaram caminhos jurídicos semelhantes aos mencionados por Kavanaugh no voto dissidente.
Entre as alternativas aparecem:
- Seção 122 da Lei de Comércio, que permite tarifas temporárias de até 15%;
- Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, baseada em investigações sobre práticas desleais;
- Seção 338 da Lei de 1930, com tarifas de até 50%;
- Seção 232 da Lei de 1962, ligada à segurança nacional.
Constituição e limites ao poder presidencial
A Constituição dos EUA atribui ao Congresso a competência para criar impostos e tarifas.
Mesmo assim, Trump utilizou a Lei de Poderes Econômicos em Emergência Internacional (IEEPA) para aplicar tarifas quase globais sem aprovação legislativa.
A Corte afirmou que a IEEPA permite apenas a regulação do comércio em emergências nacionais e não autoriza explicitamente a criação de tarifas.
Os ministros destacaram que a Constituição impede delegação ambígua de poderes com grande impacto econômico.
O tribunal também ressaltou que o presidente ainda pode recorrer a outras leis comerciais específicas.
Reação de Trump
Segundo a Reuters, Trump classificou a decisão como “uma vergonha” e afirmou que possui um plano alternativo.
Em agosto de 2025, o presidente já havia criticado uma decisão de instância inferior que considerou ilegais grande parte das tarifas.
Em publicação na Truth Social, Trump declarou que tarifas representam a melhor ferramenta para proteger trabalhadores e empresas americanas.
No segundo mandato, o presidente transformou as tarifas em eixo central da política externa, com uso estratégico em negociações comerciais.
Tarifas sobre produtos brasileiros
Em abril de 2025, Trump anunciou tarifas recíprocas e adicionou 10% sobre produtos brasileiros. Em julho, elevou o percentual em 40%, totalizando 50%.
O governo incluiu exceções para itens como suco de laranja, aeronaves civis, petróleo, veículos, fertilizantes e produtos energéticos.
Em novembro, após negociações com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e reuniões no contexto da Organização das Nações Unidas, os EUA retiraram parte das tarifas adicionais sobre produtos como café, carnes e frutas.
As tarifas sobre aço e alumínio permanecem em vigor porque o governo utilizou fundamentos legais diferentes dos analisados pela Corte.






