A morte é o destino final de todos os seres vivos, mas e quando essa temática envolve aviões? Para máquinas que desafiam a gravidade, o fim da linha não é um evento biológico, e sim uma decisão matemática e logística de alta precisão. Quando os custos de manutenção superam o valor de mercado — o chamado “limite econômico” — gigantes de metal são enviados a pátios de armazenamento e desmonte, onde a anatomia do voo é cuidadosamente desfeita para alimentar uma indústria global de reciclagem aeronáutica, que movimenta bilhões de dólares por ano.
O ciclo de vida
Dados da Aircraft Fleet Recycling Association (AFRA) indicam que entre 600 e 1.000 aeronaves comerciais são retiradas de serviço anualmente em todo o mundo, número que varia conforme o ciclo econômico da aviação. Uma parcela significativa desses aviões não retorna aos céus e entra no processo conhecido como part-out, no qual a aeronave é desmontada para a venda de peças reutilizáveis.
O critério para o fim da vida útil raramente é a incapacidade técnica de voar. Na maioria dos casos, o fator decisivo é a viabilidade econômica. Um Check D — a manutenção mais pesada e completa de uma aeronave — pode custar entre US$ 2 milhões e US$ 5 milhões em aviões de corredor único, enquanto modelos de maior porte podem ultrapassar US$ 8 milhões. Em aeronaves com mais de 20 anos, esse investimento frequentemente supera o valor de mercado do ativo, tornando o desmonte a opção financeiramente mais racional.
A geografia estratégica

Os maiores centros de armazenamento e desmonte do mundo não são escolhidos ao acaso. Locais como o 309º AMARG, no Arizona (EUA), o Aeroporto de Teruel, na Espanha, e Alice Springs, na Austrália, compartilham condições climáticas e geológicas específicas. A baixa umidade relativa do ar reduz a corrosão, enquanto o solo duro e alcalino suporta o peso de aeronaves de grande porte sem necessidade de pavimentação extensiva. Além disso, a vasta disponibilidade de áreas de baixo custo permite o armazenamento simultâneo de centenas de aviões.
A economia circular da aviação

O mercado de Materiais de Serviço Usados (Used Serviceable Materials – USM) vive um período de crescimento. Projeções de consultorias especializadas indicam que o setor de desmonte e reciclagem de aeronaves deve movimentar entre US$ 5,5 bilhões e US$ 6 bilhões globalmente em 2026, impulsionado pela renovação de frotas e pela busca por redução de custos operacionais.
Uma única aeronave de médio porte pode fornecer milhares de componentes certificados que retornam ao mercado. Os motores concentram cerca de 70% a 80% do valor de revenda de um avião desmontado, enquanto itens como APU e trens de pouso compõem parte relevante do valor restante.
Eficiência da reciclagem
A sustentabilidade na aviação também passa pelo destino dos aviões aposentados. Centros certificados pela AFRA conseguem reaproveitar ou reciclar até 90% do peso de uma aeronave, com destaque para metais como alumínio, titânio e aço, além da recuperação de fluidos e componentes internos.
O grande desafio tecnológico permanece nos materiais compósitos, especialmente a fibra de carbono, amplamente utilizada em modelos como o Airbus A350 e o Boeing 787. Diferentemente do alumínio, esses materiais exigem processos complexos, como a pirólise, que ainda enfrentam limitações de escala industrial para alcançar níveis mais elevados de reciclabilidade.








