Embora a derrota por 3 sets a 0 para o Sesc-Flamengo, na sexta-feira (30), tenha piorado a posição do Tijuca Tênis Clube na Superliga feminina, o jogo marcou um triunfo pessoal histórico para o time. A oposta Júlia Azevedo retornou aos relacionamentos após 67 dias, superando um episódio violento: um assalto a tiros no último dia 23 de novembro.
“Foi muito emocionante poder estar de volta junto com as meninas. Todo mundo me acolheu bastante. Estou feliz em poder participar do jogo de novo”, declarou Júlia ao fim da partida, emocionada com a torcida que gritava seu nome.
O pai da atleta, Marcos Azevedo, que também é vice-presidente de Esportes Terrestres do clube, detalhou o crime. A família estava no carro, num domingo de reunião, na esquina da Rua Conde de Bonfim com Henry Ford – pertinho de casa e da sede do Tijuca. Ao acelerar com o sinal verde, um assaltante reagiu.
“Ele (o assaltante) achou que estávamos fugindo e já saiu atirando. Quando escutei o primeiro tiro, logo acelerei”, recordou Marcos.
A Polícia Civil do Rio informa que as investigações continuam, com “diligências em andamento para apurar a autoria“.
No Souza Aguiar, exames mostraram que a bala passou raspando: a 1mm da coluna e a menos de 1cm da bexiga, e saiu pelo quadril, sem danos a órgãos.
“No momento, não senti que havia sido baleada. Pensei que fosse o impacto do carro acelerando. Só descobri na garagem de casa, quando levantei a camisa. Aí começou a correria. Foi surreal”, contou a jogadora, com passagem pelo Brusque.

Júlia optou pela gratidão. “Os médicos disseram que 23 de novembro é meu segundo aniversário. Claro que doeu depois, mas não fiquei triste ou com medo. Só agradeci. Tudo poderia ter dado errado, mas deu certo“, afirmou.
As companheiras de time a apoiaram imediatamente. Júlia credita a essa força a primeira vitória do Tijuca na liga, contra o Sorocaba, quando compareceu de cadeira de rodas e recebeu uma faixa: “Força, Júlia!”.
A pausa nos treinos durou duas semanas, preenchidas com leitura e redes sociais. Depois, começou uma reabilitação intensa no clube. Ela assistiu a todos os jogos em casa e viajou de ônibus para São Paulo para apoiar o time. O retorno pleno aos treinos veio em 20 de janeiro, sob aplausos das colegas a cada acerto.
Atualmente, ela só sente um ligeiro receio de cair sobre o quadril e “quase nada de dor“. O preparador físico Fabiano de Brito credita a rápida recuperação à disciplina de Júlia.
“Não é normal um retorno tão rápido. Mas sua dedicação e coragem permitiram um retorno seguro e com qualidade”, avaliou.
Sobre o trauma, Júlia se recusa a alimentar o medo. “Não adianta viver com medo. Sou tijucana, nasci e cresci aqui. Não vou temer meu próprio bairro“, disse, determinada.
Marcos, o pai, vê nessa atitude um traço familiar. “Procuramos ver o lado bom. Fomos gratos. Em vez de remoer, partimos para a frente“, compartilhou.
Para Júlia, o capítulo agora se resume a seguir em frente. “Agora é só alegria. Usar isso para ser mais grata, feliz e viver com leveza“, concluiu.








