Entre a história e o mito: o Crime da Rua do Arvoredo

Desaparecimentos entre 1863 e 1864 levaram à descoberta de homicídios e latrocínios

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José Ramos e Catarina Palse – Foto: Reprodução

Porto Alegre, década de 1860. Em pleno Brasil Imperial, quando a capital da então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul ainda era iluminada por lampiões a óleo, um caso criminal chocou a cidade e atravessou gerações. Na antiga Rua do Arvoredo — hoje Rua Coronel Fernando Machado — ocorreu um dos episódios mais famosos e controversos da história policial brasileira: o Crime da Rua do Arvoredo.

Ao longo do tempo, o caso ganhou contornos de lenda, especialmente por conta da acusação de que restos mortais de vítimas teriam sido transformados em embutidos. Parte dessa narrativa, porém, mistura fatos comprovados com exageros da imprensa da época e construções do imaginário popular.

Os envolvidos e o contexto dos crimes

A rua do Arvoredo – Reprodução

Na Rua do Arvoredo morava José Ramos, conhecido por receber visitas com frequência. Com ele vivia Catarina Palse, sua companheira. À primeira vista, nada indicava que o endereço se tornaria cenário de uma série de crimes que marcariam a história da cidade.

As investigações identificaram três personagens centrais: o próprio José Ramos, apontado como o principal autor dos homicídios; Catarina Palse, sua companheira e cúmplice; e Carlos Claussner, um açougueiro de origem alemã que mantinha relação com o casal.

Entre 1863 e 1864, comerciantes e viajantes começaram a desaparecer em Porto Alegre. Um aspecto em comum chamou a atenção das autoridades: muitos haviam sido vistos pela última vez após encontros com José Ramos. As vítimas costumavam portar dinheiro ou bens de valor, o que afastava a hipótese de simples fuga ou mudança repentina.

Familiares e conhecidos passaram a relatar à polícia que os desaparecidos haviam mencionado visitas à casa de Ramos pouco antes de sumirem, intensificando as suspeitas.

A investigação e a descoberta

Diante das denúncias, a polícia decidiu investigar o imóvel da Rua do Arvoredo. Durante as buscas, foram encontrados objetos pessoais pertencentes às vítimas e, posteriormente, restos mortais humanos enterrados no quintal e jogados em um poço.

A apuração revelou que os crimes não eram episódios isolados, mas parte de uma ação repetida. As autoridades concluíram que as vítimas eram atraídas para a residência, mortas e roubadas, caracterizando crimes de latrocínio.

O avanço decisivo da investigação ocorreu após o desaparecimento do comerciante Januário Ramos da Silva e de seu auxiliar, José Ignácio de Souza Ávila, cujos sumiços reforçaram as evidências contra os suspeitos.

O papel do açougueiro e a construção da lenda

Durante o processo, surgiu a figura de Carlos Claussner. Depoimentos indicam que o açougueiro teria sugerido o uso da carne das vítimas para a fabricação de linguiças, como forma de ocultar os corpos.

Há registros de que embutidos produzidos a partir dessa carne chegaram a ser comercializados. No entanto, não há comprovação documental de que a carne humana tenha sido misturada à de porco, nem de que houvesse um “sabor diferenciado” responsável por grande aceitação popular. Esses elementos surgiram sobretudo em relatos posteriores e no sensacionalismo da imprensa da época, contribuindo para a mitificação do crime.

Julgamento e desfecho

José Ramos foi preso, julgado e condenado inicialmente à pena de morte, posteriormente comutada para prisão perpétua, conforme a legislação vigente no Império. Ele morreu em 1893, na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, negando até o fim a versão de que linguiças teriam sido feitas com carne humana.

Catarina Palse também foi condenada, cumpriu pena e, após ser libertada, desapareceu dos registros históricos. Carlos Claussner não chegou a ser julgado: seu corpo foi encontrado durante o andamento das investigações, e a principal hipótese levantada à época foi a de que teria sido morto pelos próprios comparsas.

Memória, controvérsia e legado

Com o encerramento do processo, a Rua do Arvoredo passou a ser evitada por moradores e ganhou notoriedade negativa. Anos depois, a via teve o nome alterado para Rua Coronel Fernando Machado, em uma tentativa de romper com o estigma associado ao episódio.

Embora os assassinatos e a ocultação de corpos sejam fatos comprovados, a dimensão exata da comercialização de carne humana segue em debate entre historiadores. O endereço preciso da casa onde ocorreram os crimes também não é consenso, já que o prédio hoje associado popularmente ao caso foi construído décadas depois.

Mais de um século depois, o Crime da Rua do Arvoredo permanece como um marco da história criminal brasileira, exemplificando como fatos reais, a cobertura sensacionalista da época e a memória coletiva podem se combinar e transformar um episódio policial em lenda urbana.

Extra: livro inspirado no caso

Divulgação Editora Lucens

O episódio também inspirou obras literárias contemporâneas, como o romance Os Canibais da Rua do Arvoredo, de Tailor Diniz. Publicado em 2023, o livro parte da história real para construir uma narrativa de ficção e sátira, na qual personagens modernos — um estudante de gastronomia e uma aluna de medicina — se mudam para a antiga Rua do Arvoredo e acabam envolvidos em eventos perturbadores ligados ao passado macabro do local.

A obra mistura horror, ironia e elementos fantásticos, reinterpretando a lenda dos crimes do século XIX de forma criativa. O livro foi destaque em eventos literários e chegou a figurar entre os finalistas do Prêmio Jabuti.

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