Somos todos Iris Rezende

Liturgia e memória como lições permanentes

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O tempo faz bem a Iris Rezende. Vivo, ele personificava o bom político. O que faz. O que se dedica ao povo. O que honra o espírito público. Hoje, sua memória ultrapassa as fronteiras do passado e do futuro em um presente permanente, que representa tudo que ele é, e tudo que a Política precisa ser para merecer ser maiúscula.

O Instituto Iris Rezende, homenageado e aplaudido nesta quinta-feira, 11 de setembro de 2025, é o corpo em movimento dessa era em que o referencial se faz espelho. Iris reflete. Iris inspira reflexão. Iris usa os sentidos das palavras e das pessoas para que não percamos o rumo – ou para que o reencontremos, em tempos turvos e turbulentos.

Falo com admiração quando me refiro a Iris. Assumo total e absoluto desprendimento. Da convivência com ele, em seus íntimos anos, carrego lições que também voam no tempo e no espaço. São exemplos vivos que ou iluminam situações que passei na cobertura política, como jornalista, ou abrem caminhos para o entendimento do que se passa e me aflige eventualmente.

Não esqueço da singeleza de seu raciocínio ao expor em uma frase o motivo de, prefeito de Goiania, não arredar pé do Paço Municipal em plena pandemia de COVID. Acima dos 80 anos, portanto em grupo de risco, ele poderia muito bem ficar em casa e deixar que seu secretariado se virasse.

“Nessas horas o prefeito é o primeiro que tem que dar o exemplo, acalmar as pessoas e fazer as coisas andarem na prefeitura. A população não pode achar que está sozinha”, me disse uma tarde, eu preocupado com sua saúde. Falou em tom baixo, firme, olhando nos meus olhos, balançando as mãos como sempre fazia para reforçar o que expressava.

Se isso não é grandeza, estou perdido no mundo das miudezas e não há saída. Lembro também quando ele mandou suspender o café com pão-de-queijo no seu gabinete, uma de suas marcas como anfitrião, herança especialmente de sua mãe, que não deixava ninguém visitar sua casa e sair sem comer um quitute.

Mas por que justo o pão-de-queijo, que custa tão pouco? A resposta, tranquila na voz um pouco rouca: “Prexisamos dar o exemplo.” O exemplo era o da austeridade que passou a cobrar de sua equipe e a reiterar em entrevistas, mostrando seu compromisso com as contas em dia e com os gastos foçados no que era importante, essencial, naquele momento.

Nunca vi Iris colocar culpa no povo, por suas derrotas. E não houve ocasião em que algum auxiliar que lhe fosse contar algo ou reclamar de outro, em que ele não desse uma bronca no interlocutor. Suas conversas reservadas eram de fato reservadas. Fora isso, tudo era liturgia e institucionalidade. Não que ele fosse avesso à revolta pessoal, que ele não se sentisse impelido a subir o tom. A questão era como ele fazia, como agia, como respirava.

No dia em que um militar de Brasília entrou em seu gabinete anunciando uma homenagem a ele, cobrindo-o de elogios e vênias, ele ouviu tudo com um leve sorriso, agradeceu, mas ficou evidente seu desconforto em um detalhe: o interlocutor, em meio aos afagos, ousou diminuir o peso da ditadura militar na vida dos brasileiros.

Iris, de pé, fez então um longo relato do que muitos sofreram e do que ele passou, desde o seu mandato de prefeito, passando pelos anos na advocacia por não poder fazer política, até a abertura. E contou como levantou a voz e deu palanque, sem medo, às Diretas Já, na Praça Universitária. O interlocutor ouviu tudo em silêncio, não retrucou e ainda sorriu, ao final.

Iris, nessa hora, já estava também sorrindo, comemorando. Estava vencida a ditaduras e a conversa que não refletia a verdade. Nesse dia, depois que a comitiva saiu, ainda tentei arrancar dele um comentário de contrariedade com o que o impertinente interlocutor. Ele apenas riu com mais força e perguntou: “Eu não podia deixar ele ir embora sem conhecer a minha história.”

Ana Paula Rezende tem liderado – com a irmã Adriana no seu cuidado de evitar sempre os holofotes – uma missão grandiosa. Manter viva a memória de seu pai e colocar o pai, por inteiro, aos olhos das pessoas, o que o conheceram e os que ainda não. Isso é desprendimento. É o orgulho de filha misturado ao desejo de ser reconhecida como irmã de todos os que admiram e se inspiram em seu pai – e sua mãe, dona Iris.

O Iris do nome do Instituto é o Rezende. Mas é, naturalmente, também o de Iris Araújo. O casal Iris e Iris está presente com sua história política à parte, no memorial que nasce na Capital, moderno e imersivo na História e nas histórias que contam por si mesmas. Ana Paula representa ainda o irmão, Cristiano. Representa uma família que na veias abertas do coração corre a nossa memória e a nossa identidade. Somos todos Iris.

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