Um relatório do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (Denasus) identificou falhas na administração das maternidades municipais de Goiânia durante o período de janeiro de 2023 a junho de 2025. O documento foi apresentado na manhã de terça-feira (16), em reunião na Câmara Municipal, e analisou a gestão da Fundação de Apoio ao Hospital das Clínicas (Fundahc) nas maternidades Célia Câmara (HMMCC), Nascer Cidadão (MNC) e Dona Íris (HMDI).
De acordo com a auditoria, as unidades enfrentaram interrupções graves de serviços, como desabastecimento de insumos e medicamentos, além de falhas na assistência a gestantes e recém-nascidos. O relatório aponta que, das 15 constatações feitas pelo Denasus, apenas uma foi considerada em conformidade. As demais indicaram problemas recorrentes de gestão, execução de recursos e prestação de serviços, configurando um cenário de fragilidade na atenção obstétrica e neonatal na capital.
Entre os problemas relatados estão a suspensão de atendimentos ambulatoriais e a inativação de leitos. No Hospital e Maternidade Célia Câmara, o ambulatório permaneceu fechado desde setembro de 2024, enquanto a UTI Adulto II ficou inativada entre outubro de 2024 e março de 2025. Na Maternidade Nascer Cidadão, não havia atendimento ambulatorial especializado, e o serviço de urgência e emergência funcionava com restrições de acolhimento.
A auditoria também identificou redução na média mensal de partos. Na Maternidade Dona Íris, houve queda de 15% em 2024 em comparação com 2023 e, em 2025, a redução chegou a 84% na média mensal. No Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara, a diminuição em 2025 foi de 20% em relação a 2024. Já na Nascer Cidadão, a queda foi de 17% no mesmo período.
Outro ponto destacado pelo Denasus foi a insuficiência de profissionais de saúde para atender à capacidade instalada das unidades. Segundo o relatório, as três maternidades não contavam com equipes multiprofissionais em número adequado para garantir a atenção obstétrica e neonatal.
Diante do cenário, o órgão recomendou que a Secretaria Municipal de Saúde adotasse medidas administrativas e operacionais para assegurar o funcionamento contínuo dos serviços e evitar a perda de recursos federais destinados ao custeio das unidades.
Mudança no modelo de gestão
Em agosto de 2025, o contrato com a Fundahc foi rescindido, e as maternidades passaram a ser geridas por organizações sociais. Dados divulgados pelas novas gestoras indicam aumento no volume de atendimentos entre setembro e novembro de 2025, período que não foi analisado pela auditoria do Denasus.
Segundo essas informações, foram registrados 25.139 atendimentos no período, número 71% superior ao do mesmo intervalo do ano anterior. As unidades contabilizaram atendimentos de urgência e emergência, consultas ambulatoriais, exames laboratoriais e de imagem, além da realização de 1.735 partos e 2.874 internações.
Dívidas e investigações
A Secretaria Municipal de Saúde informou que a atual administração assumiu, em janeiro de 2025, a rede de saúde com serviços suspensos devido à falta de repasses financeiros. Ainda segundo a pasta, em 2025 foram pagos R$ 276 milhões em dívidas relacionadas à saúde acumuladas na gestão anterior.
No fim de 2024, a Polícia Civil de Goiás deflagrou uma operação que apurou possíveis desvios financeiros na área da saúde durante a gestão passada, resultando na prisão do então secretário municipal de Saúde. De acordo com a Prefeitura, mesmo após tentativas de renegociação, os problemas nas maternidades persistiram, o que levou à mudança no modelo de gestão.








