O dia 5 de março de 1966 amanheceu com uma lucidez cruel em Tóquio. Após o trauma ainda quente de um desastre com um DC-8 da Canadian Pacific (Voo 402), o céu azul sobre o aeroporto de Haneda parecia um pedido de desculpas. O capitão Bernard Dobson, ao alinhar seu Boeing 707 na pista, tinha diante de si uma visibilidade perfeita — o tipo de dia que convida pilotos a saírem do protocolo em nome da beleza. O que ele não sabia é que, na aviação, a transparência absoluta pode ser o disfarce mais perigoso de uma armadilha atmosférica.
O voo BOAC 911 não era apenas mais uma rota comercial; era o encerramento de uma jornada de sonhos para um grupo de 75 pessoas vinculadas à empresa Thermo King, entre funcionários e seus cônjuges, que celebravam uma turnê, patrocinada pela empresa em que trabalhavam, pelo Extremo Oriente.
O voo rumo ao gigante de gelo
A aeronave a qual todos iriam viajar era a que dominava os ares da época: um Boeing 707-436. Robusto, veloz e símbolo da era de ouro do jato. Com 113 passageiros e 11 tripulantes a bordo, o plano de voo era simples: seguir para Hong Kong.
No entanto, o dia estava excepcionalmente claro. O Monte Fuji, com seu cone perfeitamente nevado, erguia-se no horizonte como um convite irresistível. O capitão Dobson solicitou uma alteração na rota para passar mais perto da montanha, querendo presentear seus passageiros com uma vista privilegiada do ícone japonês. Às 13h58, o 707 subiu aos céus. Poucos minutos depois, o radar de Tóquio perdeu o contato.
O martelo invisível

A tragédia do BOAC 911 não foi causada por falha mecânica prévia ou erro humano crasso no comando. O avião foi vítima de um fenômeno meteorológico hoje bem conhecido, mas então subestimado: a Turbulência de Céu Claro (CAT) gerada por uma “Onda de Montanha”.
Ao se aproximar do sopé do Monte Fuji pelo lado de sotavento, o jato entrou em uma zona de correntes de ar extremamente violentas, geradas pelo vento forte que batia na montanha e criava ondas de choque e rotores invisíveis — como a água de um rio que fica caótica logo depois de passar por uma grande rocha.

O Boeing 707 foi atingido por rajadas tão violentas que excederam os limites estruturais do projeto. Em questão de segundos, a força G foi tão intensa que a cauda (estabilizador vertical) se soltou do corpo da aeronave. Sem controle, as asas e os motores foram arrancados logo em seguida. O avião se desintegrou no ar, caindo em pedaços sobre a floresta de Gotemba.
O detalhe
A perícia encontrou o testemunho chave da tragédia não em relatórios de radar, mas no rolo de filme de um passageiro anônimo. Uma câmera de 8mm, recuperada no sopé da montanha, revelou o exato momento em que o prazer se transformou em terror. As imagens serenas do Monte Fuji, capturadas através da janela, dão lugar a um borrão violento e, em seguida, ao vazio.
O mecanismo da câmera travou não por falta de bateria, mas porque o impacto da força G foi tão rápido que ‘atropelou’ a mecânica do aparelho — um registro físico de que o Boeing 707 foi submetido a tensões que nenhuma engenharia da época previra.
O que mudou na aviação?
O acidente do BOAC 911 foi um divisor de águas para a segurança aérea mundial. A morte das 124 pessoas a bordo forçou a indústria a encarar perigos que o olho humano não podia ver.
- Mapeamento de Turbulência: A tragédia acelerou o estudo das correntes de jato e das ondas de montanha. Pilotos passaram a ser treinados para evitar voar próximos ao lado de sotavento de grandes formações rochosas em dias de ventos fortes, mantendo distâncias de segurança rigorosas. Além de desacelerar ao entrar em zonas de turbulência.
- Inspeção Estrutural: A descoberta de pequenas rachaduras por fadiga na cauda do avião, embora não tenham sido a causa principal, levou a revisões obrigatórias de manutenção e inspeções em toda a frota global de Boeing 707 e 720.
- Meteorologia Aeronáutica: Houve um investimento massivo em modelos de previsão meteorológica. Embora radares de bordo modernos ainda tenham dificuldade em “enxergar” turbulências em ar seco (sem umidade), o desenvolvimento de sistemas de solo como o Doppler de Terminal (TDWR) em décadas seguintes ajudou a mapear ventos perigosos em áreas críticas.

A imagem do BOAC 911 taxiando em frente aos destroços fumegantes do acidente do dia anterior permanece como uma das mais irônicas e tristes da história da aviação. Hoje, o Monte Fuji continua sendo admirado por milhões, mas os aviões que o circundam mantêm uma distância respeitosa, cientes de que a beleza daquela montanha esconde forças capazes de dobrar o aço.









