A ida do presidente Lula a Washington para se reunir com Donald Trump tem importância maior do que a fotografia oficial na Casa Branca. É um encontro que ocorre em meio a tensões comerciais, disputas geopolíticas, interesse americano em minerais estratégicos, preocupação com crime organizado transnacional e necessidade brasileira de reduzir danos provocados por tarifas contra produtos nacionais. Segundo as notícias, a pauta deve incluir tarifas, economia e cooperação em segurança.
Para o Brasil, o primeiro ponto é compreender que diplomacia não é palanque. Lula pode discordar de Trump em quase tudo no campo ideológico, mas, como chefe de Estado, precisa defender interesses permanentes do país. Relações internacionais não se fazem apenas com afinidade política. Fazem-se com pragmatismo, cálculo, paciência e clareza de objetivos.
O Brasil deve propor, antes de tudo, a normalização comercial. As tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros atingem setores produtivos, afetam exportadores e criam insegurança para empresas que dependem do mercado americano. A reunião precisa servir para abrir caminho a uma revisão dessas barreiras, com base em critérios técnicos, econômicos e recíprocos, e não em humores políticos.
Também é indispensável colocar na mesa uma agenda de investimentos. O Brasil tem energia limpa, agronegócio competitivo, indústria que pode ser reativada em áreas estratégicas, mercado consumidor robusto e posição geopolítica relevante. Deve oferecer parceria, mas não submissão. Em especial, no tema dos minerais críticos e terras raras, apontado como interesse dos Estados Unidos, o Brasil precisa deixar claro que não quer ser apenas fornecedor de matéria-prima barata. Quer agregar valor, industrializar, gerar tecnologia e emprego dentro do país.
Na segurança pública, o Brasil pode propor cooperação contra o crime organizado, tráfico de drogas, armas, lavagem de dinheiro e atuação internacional de facções. Esse é um campo em que os dois países têm interesses concretos. Já há iniciativas de integração de dados entre órgãos brasileiros e americanos para enfrentar rotas ilegais e fluxos criminosos transnacionais.
Mas há um limite: cooperação não pode significar tutela. O Brasil deve ouvir propostas americanas, mas precisa rejeitar qualquer tentativa de enquadrar problemas internos brasileiros sob lógicas externas que reduzam a soberania nacional. Se os Estados Unidos falarem em classificar facções brasileiras como organizações terroristas internacionais, por exemplo, o governo brasileiro terá de avaliar com extremo cuidado os efeitos jurídicos, diplomáticos e operacionais dessa medida. Combater o crime é urgente; terceirizar a política de segurança, não.
O que podemos ouvir de Trump? Podemos ouvir cobranças duras. Trump tende a negociar pressionando. Pode exigir abertura comercial, garantias a empresas americanas, acesso privilegiado a minerais estratégicos, alinhamentos em temas internacionais e maior cooperação em segurança. Também pode usar a conversa para vender internamente a imagem de que os Estados Unidos voltaram a comandar a agenda hemisférica.
Lula, por sua vez, precisa evitar dois erros. O primeiro seria transformar o encontro em espetáculo ideológico para consumo da militância. O segundo seria aceitar concessões excessivas em busca de uma vitória diplomática de curto prazo. O Brasil não deve ir a Washington para pedir bênção. Deve ir para negociar.
A reunião é importante porque coloca frente a frente dois líderes de estilos opostos, mas obrigados pela realidade a conversar. Lula precisa de resultados econômicos e de uma imagem internacional de equilíbrio. Trump precisa de acordos, influência e respostas práticas em comércio, segurança e cadeias estratégicas. Há divergências, mas há interesses cruzados.
O melhor resultado para o Brasil seria sair da reunião com avanços em três frentes: redução ou revisão de tarifas, abertura de canais permanentes de cooperação em segurança e compromisso de investimentos com transferência tecnológica. O pior resultado seria voltar apenas com frases, fotos e ambiguidades.
Em diplomacia, o gesto importa. Mas o que fica é o acordo. A ida de Lula a Trump será positiva se o Brasil falar com firmeza, ouvir com inteligência e negociar com senso de Estado. Porque, entre a retórica e o interesse nacional, a escolha deve ser sempre pelo Brasil.
