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Crianças nas redes: o limite de idade não basta

A sociedade que se horroriza com feminicídio permite que crianças consumam agressividade banalizada. Nova regra é bem-vinda, mas insuficiente

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A decisão de elevar a classificação indicativa do YouTube para 16 anos, somada às novas regras do chamado ECA Digital, é um avanço importante. A nova legislação passou a exigir contas de crianças e adolescentes de até 16 anos vinculadas a responsáveis, ferramentas de supervisão parental e mecanismos mais confiáveis de verificação de
idade, indo além daquela velha mentira do “tenho mais de 18 anos” marcada com um clique.

Mas sejamos francos: a lei chega depois que o problema já invadiu a sala, o quarto, a escola, a mesa do almoço e até o colo das crianças. Elas estão nas redes. Estão no YouTube, no TikTok, no Instagram, nos jogos on-line, nos grupos de mensagens. Muitas vezes sabem mexer melhor no aparelho do que os próprios pais. O celular virou babá,
brinquedo, companhia, escola paralela e, em alguns casos, uma porta aberta para o pior do mundo.

A preocupação não é o moralismo barato. É proteção. Crianças assistem a cenas de violência, humilhação, sexualização precoce, discursos de ódio, desafios perigosos, agressividade banalizada e até conteúdos que naturalizam a violência contra a mulher. O menino que cresce vendo a brutalidade como espetáculo pode perder a sensibilidade diante da dor alheia. A menina que cresce exposta à cultura da agressão pode achar normal aquilo que jamais deveria ser normalizado.

O governo tem responsabilidade, sim. Precisa regular, fiscalizar, multar plataformas, exigir filtros reais e proteger dados de menores. O ECA Digital prevê obrigações para empresas de tecnologia, inclusive contra mecanismos que estimulam uso compulsivo, como reprodução automática e rolagem infinita para menores. Mas o governo sozinho não
dá conta. Nenhuma lei substitui a presença de pai, mãe, escola, comunidade e consciência.

O drama é que todos parecem um pouco perdidos. Os pais trabalham demais, chegam cansados, entregam o celular para ganhar silêncio. A escola tenta educar uma geração hiperconectada, ansiosa e dispersa. As plataformas lucram com atenção, clique e permanência, e a sociedade, enquanto discute culpados, vai deixando a infância ser atropelada por algoritmos que não têm afeto, não têm limite e não têm responsabilidade moral.

Não se trata de proibir tudo. Também seria ingenuidade. A tecnologia faz parte da vida. O desafio é ensinar uso, criar horários, acompanhar conteúdos, conversar, impor limites, retirar o aparelho quando necessário e, principalmente, não abandonar a criança sozinha diante de uma tela que oferece de tudo: do desenho inocente à violência mais crua.

Há uma contradição dolorosa nisso tudo. A mesma sociedade que se horroriza com o feminicídio permite que crianças consumam, desde cedo, uma cultura de agressividade, desrespeito e desumanização. Depois, quando a tragédia aparece, perguntamos onde erramos. Talvez tenhamos errado antes: quando confundimos acesso com liberdade,
silêncio com educação e tecnologia com cuidado.

A nova regra é bem-vinda. Mas ela é apenas uma cerca. E cerca nenhuma protege a criança se o portão de casa continuar escancarado. A proteção da infância precisa ser uma tarefa coletiva. Do Estado, das plataformas, das escolas, das famílias e de todos nós. Porque uma sociedade que não consegue proteger suas crianças hoje dificilmente saberá formar adultos melhores amanhã.

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