Quem viveu nas décadas de 1980 e 1990 provavelmente ainda guarda no imaginário a visão de um futuro dominado por máquinas — como em The Terminator (1984), em que a inteligência artificial (IA) Skynet decide eliminar a humanidade. À época, parecia um cenário distante, ainda que inquietante.
A ficção, no entanto, antecipou debates que hoje deixaram o campo da imaginação. A inteligência artificial já faz parte do cotidiano — seja ao editar imagens para redes sociais ou ao automatizar tarefas no ambiente de trabalho. O que antes era hipótese se tornou prática. A questão, agora, não é mais “se” isso aconteceria, mas “como” temos lidado com essa transformação.
No documentário The Thinking Game (2024), acompanhamos o avanço da IA a partir da trajetória da DeepMind, fundada por Demis Hassabis. A proposta de desenvolver uma inteligência artificial geral, capaz de aprender como o cérebro humano, deixa de ser abstração quando sistemas como o AlphaGo superam campeões mundiais do jogo Go. O salto tecnológico já ocorreu — e continua em curso.
No Brasil, os efeitos começam a aparecer no mercado de trabalho. Dados do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) indicam que jovens entre 18 e 29 anos têm menos chances de conseguir emprego em comparação ao período anterior à popularização da IA. Funções de entrada, antes ocupadas por iniciantes, estão entre as mais impactadas por processos automatizados. O resultado é um mercado mais exigente, que pressiona por qualificação e reposiciona competências.
Ao mesmo tempo, surgem reações institucionais. Na China, decisões judiciais já apontam limites para a substituição de trabalhadores por inteligência artificial, ao estabelecer que a automação não pode justificar demissões sem alternativas, como a requalificação profissional. Ainda assim, esse tipo de proteção não resolve um ponto central: o que ocorre com quem sequer conseguiu entrar no mercado?
É nesse contexto que a educação ganha protagonismo. O próprio governo chinês tem incorporado a inteligência artificial desde os primeiros anos escolares, combinando ensino técnico e pensamento crítico. A proposta não é apenas formar usuários de tecnologia, mas indivíduos capazes de compreendê-la e questioná-la.
No Brasil, iniciativas recentes também caminham nessa direção, como políticas voltadas à educação digital e midiática. Mas o desafio vai além do acesso à ferramentas como o ChatGPT. Trata-se de formar pessoas que saibam interpretar, usar e, sobretudo, refletir sobre essas tecnologias.
A cultura pop, novamente, nos auxilia a pensar esse cenário. Em WALL‑E (2008), os humanos delegam tudo às máquinas e, nesse processo, perdem autonomia e conexão entre si. Ainda assim, o filme sugere uma possibilidade de retorno — uma redescoberta do papel humano.
Talvez seja esse o ponto central do debate atual. A inteligência artificial não elimina, por si só, o espaço humano. Mas exige adaptação. Entre o medo do passado e os desafios do presente, o futuro dependerá menos das máquinas e mais da forma como escolhemos conviver com elas.
