O mito da mansão grega no meio do Planalto Central

Nascido nas redes sociais, o rótulo Greco-Goiano mistura preconceito regional e lógica de mercado para revelar uma arquitetura que transforma estética em mercadoria, reforça o isolamento social e enfraquece a relação da cidade com o espaço público.

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Foto: Reprodução redes sociais

O futuro foi o berço onde Goiânia despertou. Na década de 1930, o Art Déco não era apenas uma escolha estética, mas um projeto de civilização que buscava romper com o passado colonial da antiga capital. Hoje, quase um século depois, a arquitetura da cidade experimenta guinada na sua trajetória rotulada — em partes — em redes sociais como Greco-Goiano.

No lugar das linhas geométricas e da “gentileza urbana” do centro histórico, surgem colunas gregas de isopor, edifícios de grife que ignoram o calor do Cerrado e condomínios que funcionam como ilhas de isolamento.

O debate é muito mais profundo que uma simples discussão sobre “bom ou mau gosto”. Ele revela uma elite financeira em busca de identidade, um mercado imobiliário que prioriza a grife sobre o conforto e uma cidade a qual, pouco a pouco, deixa de olhar para a rua.

A certidão de nascimento de um meme: o Greco-Goiano

O termo “Greco-Goiano’ não surgiu da universidade. Como explica o professor Emilliano Freitas, da Universidade Federal de Goiás (UFG), esse rótulo nasceu no antigo Twitter quando o cantor Gusttavo Lima revelou sua mansão de proporções monumentais.

Greco-Goiano
Reprodução redes sociais

Para Emilliano, o termo é um meme que muitas vezes carrega um preconceito dos grandes centros do Sudeste contra o Centro-Oeste. Ele lembra que existem construções similares em São Paulo — como o antigo prédio da Daslu ou escritórios na Vila Olímpia — mas o rótulo de “cafona” acaba colado em Goiás como um estereótipo regional.

Além disso, o professor ressalta que o fenômeno é restrito: essas mansões representam menos de 10% das casas nos condomínios de luxo, não se apresentam como a regra da paisagem local.

Ainda assim, a realidade estética existe. Para quem vê a técnica, como o arquiteto Raul Prado, o problema é a “cenografia”. Tanto ele quanto o professor pontuam que o “Greco-Goiano” tenta emular o Neoclássico — estilo que buscava simetria e nobreza em prédios públicos — mas falha ao usar materiais que apenas simulam o luxo.

“É uma arquitetura cenográfica”, afirma Raul. “São colunas de concreto ou gesso que fingem ser mármore. É o uso banal das formas para demonstrar um status financeiro, não cultural.”

O drama da casa sem alma

Recentemente, o cantor João Gomes viralizou ao reclamar que não encontrava arquitetos que fizessem uma casa “com alma”. Segundo ele, todos ofereciam o modelo “caixote” (quadrado, moderno e minimalista), enquanto ele sonhava com uma casa de alpendre. Esse desabafo toca em uma ferida aberta no mercado imobiliário de Goiás.

Muitas das mansões construídas em condomínios de luxo de Goiânia e região metropolitana seguem uma fórmula repetitiva que, segundo Raul, faz com que as residências pareçam clínicas ou escritórios comerciais. “Falta personalidade. As pessoas estão tão preocupadas em replicar o que viram no Instagram de um influenciador que esquecem de colocar a própria essência no espaço”, comenta o arquiteto.

O descompasso climático

Um dos maiores erros de quem tenta aplicar a arquitetura contemporânea em Goiânia é o divórcio com o clima local. Tanto o “estilo Greco-Goiano” (classificado como Neoclássico tardio pelo professor) quanto as modernas “casas caixote” abusam de fachadas de vidro e eliminam o telhado aparente.

O resultado é uma dependência do ar-condicionado. Enquanto a arquitetura tradicional brasileira utilizava o cobogó, a ventilação cruzada e o tijolo de barro para manter o frescor, as novas construções preferem o “luxo” visual de uma fachada envidraçada que transforma o interior em um forno.

“O moderno original usava brises e cobogós para lidar com o sol. Hoje, a elite quer fachadas de vidro porque ‘é chique’. É uma tentativa de morar em Dubai estando em Goiânia”, analisa o professor Emilliano.

A cidade que se fecha

Prédio Infinity Business, assinado pela Pininfarina, em Goiânia – Divulgação

Para além da estética, o impacto no urbanismo é alarmante. Emilliano Freitas aponta que vivemos a era da “arquitetura de grife”. Prédios que levam assinaturas de marcas de carros de luxo — como Lamborghini e Pininfarina — vendem exclusividade, mas entregam ausência de convivência. Prédios modernos raramente possuem comércio no térreo ou marquises para o pedestre, ignorando a “gentileza urbana” necessária sob o sol ou a chuva de Goiás.

Os desejos por piscinas privativas e elevadores para carros refletem a recusa em compartilhar espaços comuns. “A porta da casa moderna é alta para mostrar poder, mas estreita porque poucos podem entrar. No neoliberalismo, o privado é o tempo inteiro privado. Não existe mais o desejo de conviver com o diferente”, conclui Emilliano.

Uma referência a esse processo de homogeneização pode ser vista no episódio 6B da 2ª temporada de Bob Esponja: Cidade de Lula (ou Squidville). Nele, Lula Molusco se cansa de ter que conviver com seu vizinho de calça quadrada — que destrói sua casa — e decide se mudar para um condomínio fechado. Lá, ele encontra o Parque dos Tentáculos, uma comunidade cercada por portões de alta tecnologia, projetada exclusivamente para quem é “igual”.

Divulgação – Paramount/Nickelodeon

A vida no condomínio parece um sonho: todos moram em casas idênticas (no formato de estátuas da Ilha de Páscoa), andam nas mesmas bicicletas, praticam a mesma dança interpretativa e tocam a mesma música na clarineta.

É o máximo do planejamento urbano higienista e da homogeneização neoliberal. Lula Molusco fica inicialmente deslumbrado pelo silêncio e pela exclusividade, porém, logo percebe que vive em um “stand de vendas” infinito. A ausência do diferente — o “caos” que era causado pelo Bob Esponja e o Patrick — transforma o paraíso num tédio insuportável.

O futuro da paisagem urbana

O veredito dos especialistas sugere que o Greco-Goiano, os edifícios “de grife” e as casas genéricas são sintomas de uma fase de transição e de um certo “viralatismo” — a cópia de referências externas sem considerar o contexto local.

No entanto, há esperança no horizonte. Raul Prado acredita que esse modelo de ‘caixote’ está saturando e prevê um retorno a telhados com quedas reais e ao uso de técnicas regionais — como o cobogó e o tijolo de barro — que garantem o frescor que o vidro não entrega.

Para ele, o futuro da elite será buscar o que é exclusivo e autêntico, justamente para se distanciar do que as outras classes vêm alcançando. Nesse meio tempo, a “personalidade de casa” deve finalmente voltar às residências.

O olhar de Emilliano vai além da estética, enxerga nessas escolhas um sintoma de como estamos nos fechando para o mundo. Enquanto o mercado imobiliário vende o luxo do isolamento em “prédios de grife”, os moradores vêm dando sinais de que querem ocupar os parques e redescobrir o convívio, movimento que pode ser visto na volta de frequentadores ao Centro da cidade e a quantidade crescente de frequentadores dos parques de Goiânia.

Para o morador de Goiânia e região metropolitana, fica a provocação: o sucesso deve ser medido pelo tamanho da coluna na fachada ou pela qualidade da sombra na varanda? Enquanto o mercado imobiliário vende status, a cidade pede socorro, exigindo uma arquitetura que, antes de ser bonita na foto, seja habitável sob o sol do Cerrado.

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