Nostalgia deixou de ser homenagem e virou exaustão

Entre remakes promissores e franquias exaustas, o cinema vive preso ao passado que insiste em não acabar

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Divulgação/Universal Pictures

É notório que a indústria do cinema aprendeu a minerar ouro por meio da nostalgia. O sentimento de “saudade de algo que já vivemos” é o porto seguro dos grandes estúdios, que preferem apostar em franquias já consagradas a arriscar em ideias originais — algo muito parecido com o que alguns estúdios de games fazem. Mas fica o questionamento: até onde essa corda pode ser esticada? Alguns filmes realmente pedem uma nova roupagem, mas, para outros, é preciso deixar claro: para tudo existe uma hora de deixar morrer.

O pontapé inicial vem de As Crônicas de Nárnia. O remake, que tem produção da Netflix e direção de Greta Gerwig, diretora de Barbie, tem previsão de estreia para o final deste ano. Pensando nisso, surgem alguns questionamentos: os estúdios sabem quando parar de explorar a saudade dos fãs?

O “Efeito Nárnia” e o possível toque de Midas de Greta Gerwig

Um dos assuntos recentes nesse universo é o retorno de As Crônicas de Nárnia. Com produção da Netflix e direção de Greta Gerwig — que provou em Barbie e Adoráveis Mulheres que sabe caminhar entre o comercial e o autoral —, o remake tem estreia prevista para o final deste ano.

Neste caso, há um fôlego que dá para justificar. A escolha de adaptar O Sobrinho do Mago (o sexto livro publicado, mas o primeiro na cronologia do universo) mostra uma intenção de explorar o que o cinema ainda não tocou: a origem do mundo de C.S. Lewis. Aqui, o remake parece ter um propósito narrativo além do lucro. Mas será que os outros estúdios sabem quando parar?

E por qual motivo esse “possível toque de Midas”? Greta, até hoje, não errou a mão. Pode ser que erre, mas torço para que não.

O ciclo infinito da fuga e da luta

Em 1993, Spielberg deixou todos de queixo caído com dinossauros que misturavam animatrônicos e um CGI que, para a época, representou uma revolução digital. O problema é que a fascinante ideia de que “a vida encontra um meio” parece ter ficado presa em um loop temporal.

Após a trilogia original, fomos apresentados a Jurassic World em 2015, cujas discussões começaram ainda em 2010. A nova saga se encerrou em 2022 com Domínio, mas a sede pelo lucro trouxe, já em 2025, o título Recomeço. A pergunta que fica é: o que sobrou para contar? É sempre a mesma premissa — humanos brincando de Deus, dinossauros saindo do controle, uma fuga desesperada e a prisão ou morte dos dinos.

Quando a história se esgota e a franquia se recusa a aceitar o fim, ela deixa de ser cinema para virar apenas um parque temático repetitivo. E, para isso, já temos parques na vida real. Sei que ninguém é obrigado a comprar um ingresso e assistir, mas é algo a se pensar.

Apesar da falta de criatividade, o público parece satisfeito: o Jurassic World de 2025 bateu 70% de aprovação do público comum no agregador de críticas Rotten Tomatoes. Mas esse número esconde uma verdade: em vez de histórias complicadas, decidiram focar em imagens bonitas e um elenco com estrelas como Scarlett Johansson.

Nesse resultado, o público não aplaude a inovação, mas sim o fato de não ter saído do cinema decepcionado. É o famoso “assim tá bom’, que acaba tirando o espaço do que poderia ser verdadeiramente novo.

Fórmulas gastas

Essa mesma sensação de “mais do mesmo” recheia Invocação do Mal 4. Ainda que os gêneros sejam um tanto distantes, o vício é o mesmo. O universo de Ed e Lorraine Warren, que começou focado em atmosfera e tensão, parece agora se escorar em sustos previsíveis (jump scares) e cenas grotescas. Isso sem falar que há uma série de exageros para incrementar o filme (não que os filmes anteriores não tenham operado de uma forma semelhante, porém a impressão que fica é a de que espremeram até onde dava).

O primeiro filme é quase um marco cultural; o segundo conseguiu ser tão bom quanto e apresentou talvez a personagem mais famosa do terror recente, a freira Valak, que acabou ganhando dois filmes próprios. O terceiro já foi bastante diferente, deixando à mostra alguns sintomas de que não havia mais o que dizer. Não é à toa que a qualidade decaiu com a saída de James Wan da direção em si.

Assim como em Jurassic World, o roteiro parece seguir um checklist: uma entidade nova, uma família assustada e uma resolução que sempre deixa a porta aberta para o próximo cheque. Falta a alma que os dois primeiros filmes entregaram com tanta maestria.

A exceção

Para não dizer que todo remake é desnecessário, olhemos para A Morte do Demônio (Evil Dead). O clássico de 1981, de Sam Raimi (diretor da trilogia clássica do Homem-Aranha, com Tobey Maguire), é uma joia do baixo orçamento. No entanto, o remake de 2013 e o recente A Morte do Demônio: A Ascensão (2023) mostram como revitalizar uma marca.

Em vez de apenas copiar o original, essas novas versões adicionaram camadas de horror, mudaram os cenários e expandiram o folclore sem perder a essência. Elas provam que é possível visitar o passado, desde que se tenha realmente algo novo para colocar na mesa — ou uma perspectiva criativa o suficiente para contar a mesma história.

O veredito

A nostalgia é um abraço quente, mas ninguém consegue viver apenas de lembranças. Hollywood precisa entender que algumas histórias brilham justamente por terem um fim. Nárnia tem a chance de provar que o remake pode ser arte, mas, enquanto continuarem ressuscitando dinossauros sem nada novo a dizer, o cinema seguirá correndo o risco de se tornar um museu de grandes novidades… todas repetidas.

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