A misoginia que mata duas vezes: na violência e na culpa imposta

Uma análise contundente sobre como a sociedade ainda transforma vítimas em culpadas diante da violência contra mulheres e crianças.

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Foto: Freepik.

“Se ela não tivesse traído não estaria morta andando”. “Estão fazendo fofocas para tirar toda culpa da donzela.” “Lágrima de crocodilo. Ela foi a causadora de toda essa tragédia.” “A culpa é dela”. Não demorei a encontrar comentários como esses em redes sociais, publicados sob matérias que relatavam a tentativa de assassinato de uma criança de oito anos e assassinato de outra de doze anos pelo próprio pai, em Itumbiara (GO), na última quinta-feira (12).

Confesso que não consegui ir muito longe nessa pesquisa. Comentários de homens e mulheres, de diferentes idades, provocam um embrulho difícil de suportar. Muitos tentam justificar a interrupção da vida de duas crianças por quem deveria protegê-las — sob a alegação de uma suposta traição da mãe.

Esse é o tipo de notícia que me adoece narrar. Já pensei em abandonar o jornalismo por causa disso. Ainda assim, é nesses momentos que a cobertura me obriga a constatar a sociedade estamos vivendo e que a misoginia continua escapando por frestas quase invisíveis, como uma planta que nasce no asfalto.

São muitos pontos a considerarmos neste caso. Eu ainda estou digerindo tudo isso e tem eclodido tantas outras questões na minha mente. Tantos que me sufocaram ao ponto de me causarem esta escrita inicial de reflexão que gostaria de compartilhar com você.

A violência aparece, aqui, como instrumento de vingança. Parte da ideia de posse: se o corpo dela “pertence” a ele, então ele se sentiria autorizado a destruir tudo ao redor. O Projeto de Lei 3.880/2024, em tramite no Congresso, define esse mecanismo como violência vicária — quando se atinge outra pessoa para ferir a mulher.

O alvo simbólico é ela; as vítimas reais, muitas vezes, são os filhos. Vale destacar o gênero de quem comete a violência, homens. Já que mulheres são traídas e se retiram da cena. O que está por trás disso é uma masculinidade que confunde amor com posse, frustração com direito de punir. Mas não é desespero. É violência. E nada justifica a violência.

Das coincidências infelizes da vida, essa semana, ouvi o podcast do Chico Felitti, “Chá de Revelação” que revista um caso de traição exposta publicamente. A mulher traída estava grávida e apresentou provas materiais da traição que também gerou uma criança. O homem seguiu a vida, celebrou a nova relação e virou personagem admirado, galanteador. A traída tornou-se mãe solo e passou a ser hostilizada. Mas quando o traído é homem, o desfecho costuma ser outro.

Os comentários que trouxe no início deste artigo e você deve também ter lido, visto, ouvido por aí, fazem um tipo de defesa moral do agressor e não é nova. A chamada “legítima defesa da honra” sustentava a argumentação de que assassinato ou a agressão eram justificáveis ao analisar condutas das mulheres as quais supostamente ferissem a honra do homem agressor.

Essa argumentação já sustentou absolvições históricas, como o de Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, que matou a namorada Ângela Diniz a tiros, na década de 1970. Se você não conhece essa história, sugiro ouvir o podcast “Praia dos Ossos” (2020) da incrível Rádio Novelo.

No primeiro julgamento de Doca, em 1976, o advogado dele, Evandro Lins e Silva, utilizou a legítima defesa da honra. A vítima, uma mulher que tinha comportamentos que desagradava a sociedade da época, mesmo depois de assassinada, foi condenada socialmente.

Não é atoa que minissérie da HBO (2025) na qual Marjorie Estiano interpreta a socialite, “Ângela Diniz: assassinada e condenada” utiliza o primeiro a palavra “assassinada” e depois “condenada”. Doca foi absolvido, morreu aos 80 anos, livre, após ter escrito um livro no qual conta sua versão.

Décadas depois, a tese da legítima defesa da honra foi considerada inconstitucional em 2023 e entendida pela ministra Cármen Lúcia não só como questão jurídica, mas sim de humanidade. “A sociedade ainda hoje é machista, sexista, misógina e mata mulheres apenas porque elas querem ser donas de suas vidas”, detalhou.

Porém, ela ainda permanece viva no imaginário coletivo — repetida em comentários que tentam justificar o injustificável. Afinal, a culpa é sempre imputada as mulheres. Não importa se a morta é ela ou os filhos dela.

Em Itumbiara, o agressor dos próprios filhos se retirou covardemente da vida, das próprias consequências, mas antes fez uso desta tese de culpabilizar a mulher. “Afinal, ele não teria tido outra saída a não ser tirar a vida das crianças”. A argumentação moral estruturada pelo assassino, aceita e utilizada por muitos advogados e advogadas com ou sem OAB, que não cobram as custas jurídicas, mas abrem o peito, a boca e usam os dedos nos teclados por aí para defender o matador de criança. “Mãe? Mãe cuida e protege a família”, comentou um homem cis, branco de uns 65 anos ao se referir a uma notícia que retratava o choro da mãe das crianças durante o velório de um dos filhos.

Dados recentes mostram a dimensão do problema: quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil por motivação de gênero. Não são números abstratos. São histórias interrompidas — e discursos como os dos comentários que trago continuam alimentando a violência. É a busca por uma justifica de que se uma mulher trair um homem, ele está autorizado a pôr fim na vida dela e também dos filhos.

Enquanto isso em Goiás, a dor vira espetáculo. A mãe das crianças chegou a ser retirada do velório sob ameaças. A vítima transforma-se em ré. A violência simbólica continua mesmo após a tragédia.

Lamento que ainda precisemos escrever textos como este. Mas talvez o silêncio, neste caso, fosse uma forma de cumplicidade.

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