Estamos acompanhando a eleição pelo caminho habitual: intenção de voto, rejeição, crescimento dos candidatos, indecisos e cenários de segundo turno. Existe, porém, uma parte importante dessa história que aparece muito menos: quem realmente chegará à urna. A pesquisa registra uma preferência no momento da entrevista, enquanto que a eleição exige uma ação concreta alguns dias depois. Entre declarar um voto e depositá-lo existe uma distância que ganha importância justamente na reta final.
Essa distância também aparece antes da votação, durante o próprio trabalho dos institutos. Quando uma pesquisa divulga duas mil entrevistas, conhecemos as respostas dessas duas mil pessoas. Existe outra parcela que foi procurada e recusou, não atendeu ou simplesmente ficou fora do levantamento. Sobre ela sabemos muito menos. Em quem essas pessoas pretendem votar? Elas irão votar? Escolherão algum candidato, votarão em branco, anularão ou ficarão em casa? É justamente nessa parcela menos visível que podem estar muitos dos eleitores mais desanimados, desinteressados e distantes da campanha.
O eleitor fora do radar
Quem acompanha política diariamente costuma imaginar um eleitor muito mais envolvido do que aquele que existe na vida real. Há gente que acompanha pesquisas, debates, entrevistas e redes sociais o dia inteiro. Há também milhões de pessoas que atravessam a campanha dedicando pouquíssima atenção a tudo isso. Entre elas estão eleitores que recusam pesquisas, evitam conversar sobre política e chegam perto da votação ainda com pouco interesse pela disputa.
O comportamento desse grupo importa porque permanece pouco visível. Parte irá votar normalmente. Parte chegará à seção eleitoral e decidirá com pouco tempo dedicado à escolha. Parte poderá votar em branco ou anular. Outra parte ficará em casa. As pesquisas observam diretamente quem respondeu; sabemos muito menos sobre quem ficou fora. Essa diferença importa ainda mais quando a eleição entra nos últimos dias e o tempo para mudar envolvimento, disposição e decisão fica menor.
Um eleitor desanimado e pouco interessado pode chegar à votação com pouca disposição para estudar propostas, assistir a entrevistas longas ou comparar detalhadamente os candidatos. Para esse público, a decisão pode se concentrar nas impressões já formadas, nas informações mais recentes, nas conversas com pessoas próximas e, antes de tudo, na própria decisão de ir votar ou não.
Comparecimento já movimenta dezenas de milhões
Os números das últimas eleições presidenciais mostram a dimensão do fenômeno. No primeiro turno, a abstenção passou de 19,39% em 2014 para 20,33% em 2018 e 20,95% em 2022. Nos segundos turnos, ficou em 21,10% em 2014, 21,30% em 2018 e 20,59% em 2022. Em termos absolutos, estamos falando de algo em torno de 28 milhões a 32 milhões de eleitores fora das urnas em cada turno dessas eleições.
Brancos e nulos contam outra história. Em 2014, somaram 9,64% dos votos depositados no primeiro turno e 6,34% no segundo. Em 2018, foram 8,79% e 9,57%. Em 2022, caíram para 4,41% no primeiro turno e 4,59% no segundo. Os votos válidos fizeram o movimento inverso e chegaram a mais de 95% dos votos depositados nos dois turnos de 2022. Abstenção, voto em branco e voto nulo precisam ser observados separadamente: são comportamentos eleitorais diferentes.

Essa comparação ajuda a colocar 2026 em perspectiva. A abstenção já parte de um patamar elevado, enquanto brancos e nulos chegam de uma eleição em que ficaram muito abaixo dos níveis de 2014 e 2018. Isso abre espaço para acompanhar com atenção qualquer mudança nos três indicadores.
A relação do eleitor com a disputa pode aparecer de maneiras diferentes: na decisão de comparecer e, entre os que comparecem, na escolha por um candidato, pelo branco ou pelo nulo.
E aqui está um número que ajuda a entender a escala. O Brasil tem 158.765.543 eleitores aptos em 2026. Um único ponto percentual desse eleitorado equivale a aproximadamente 1,59 milhão de pessoas. Uma variação de um ponto na abstenção parece pequena quando aparece numa tabela, mas representa quase 1,6 milhão de eleitores a mais ou a menos chegando às urnas. Esse é o número atualmente informado pelo Centro de Divulgação das Eleições do TSE.
Por isso, considero a possibilidade de aumento da abstenção uma das variáveis que merecem atenção especial em 2026. O mesmo vale para uma eventual recuperação dos votos brancos e nulos em relação ao nível baixo observado em 2022. Uma mudança pequena em percentual produz um contingente eleitoral muito grande em números absolutos.
Para candidaturas ao Senado, o desafio não será apenas conquistar um voto, mas sim garantir que o eleitor chegue à urna com as duas escolhas organizadas. Parte do eleitorado pode chegar à urna sabendo em quem dará o primeiro voto para senador, mas sem uma segunda escolha definida. Outros podem tentar repetir o mesmo candidato ou decidir o segundo voto diante da própria urna.
Minha expectativa é que brancos e nulos para o Senado podem ser decisivos em 2026 justamente por causa dessa segunda escolha obrigatória.
O custo de participar entra na conta
O voto continua obrigatório para grande parte do eleitorado, mas a decisão concreta de comparecer envolve uma conta muito simples. O eleitor precisa reservar tempo, deslocar-se, reorganizar a rotina e dedicar parte do domingo à eleição. Para quem está interessado e mobilizado, esse esforço é pequeno. Para quem chega desanimado, distante da política ou pouco satisfeito com as alternativas, ele pesa muito mais.
Ao mesmo tempo, a penalidade financeira imediata pela ausência é baixa. Em 2026, cada ausência injustificada ao pleito gera multa de R$ 3,51 por turno perante a Justiça Eleitoral. Existem outras consequências para quem permanece irregular, mas o valor imediato da multa é pequeno diante do custo percebido de tempo, deslocamento e esforço para comparecer. O custo percebido de comparecer pode ser maior do que o custo percebido de faltar, principalmente entre os eleitores que já atravessam a campanha com pouco interesse.
É aí que surge uma recomendação prática para candidatos, marqueteiros, estrategistas e profissionais de campanha. A reta final precisa trabalhar comparecimento, e não apenas preferência. Existe um eleitor que já escolheu um candidato e ainda precisa transformar essa escolha em presença. Para esse público, insistir apenas em novos argumentos sobre a candidatura deixa de atacar o problema principal.
A campanha precisa lembrar que o voto depende de uma ação concreta no dia da eleição.
Isso também muda a leitura das próprias bases eleitorais. Dois candidatos podem apresentar percentuais semelhantes de intenção de voto e contar com níveis diferentes de interesse, entusiasmo e disposição para comparecer. Eleitor decidido e eleitor mobilizado são medidas diferentes. Na reta final, compreender essa distância pode ser tão útil quanto acompanhar rejeição ou migração de voto. Para quem trabalha com campanha, o recado prático é simples: preferência precisa virar presença.
Convencer alguém a escolher um candidato resolve uma parte do problema. Levar essa escolha até a urna completa o processo.
Um número que os institutos já têm
Os institutos possuem uma informação que poderia ganhar muito mais utilidade estratégica: a relação entre contatos tentados e entrevistas efetivamente realizadas. Se um levantamento termina com duas mil entrevistas, interessa saber quanto trabalho foi necessário para chegar a essas duas mil respostas. Se, ao longo da campanha, passam a ser necessários muito mais contatos para produzir a mesma quantidade de entrevistas, existe informação relevante nessa mudança.
Eu acompanharia esse número de forma sistemática, principalmente dentro do mesmo instituto e mantendo o mesmo método de coleta. Ele não precisa virar uma nova nota pública ou uma regra imposta ao mercado. Pode ser uma informação interna valiosa para o próprio instituto e para o contratante da pesquisa, porque ajuda a mostrar como evolui a disposição das pessoas para responder.
A partir daí, existe espaço para ir um passo além. A relação entre tentativas e entrevistas efetivadas, combinada com perguntas sobre interesse pela eleição, entusiasmo e disposição para votar, poderia alimentar uma métrica de propensão ao comparecimento. Não seria simplesmente uma nova pergunta de intenção de voto. Seria uma forma de acompanhar a distância entre escolher alguém numa entrevista e efetivamente chegar à urna.
Esse tipo de informação teria aplicação imediata para campanhas. Uma base com alta intenção de voto e baixa disposição para comparecer exige uma leitura diferente de uma base igualmente grande, mas mobilizada. O mesmo vale para segmentos em que aumenta a dificuldade de conseguir entrevistas ao mesmo tempo em que caem interesse e entusiasmo. A relação entre esses sinais pode oferecer uma leitura mais completa da reta final.
