E se a humanidade desaparecesse amanhã, mas deixasse para trás uma “mixtape” capaz de transmitir tudo o que fomos? Parece uma hipótese de ficção científica, mas esse não é o caso. Ela é real, metálica e está, neste exato momento, viajando pelo espaço interestelar a mais de 60 mil quilômetros por hora.
Lançados em 1977 a bordo das sondas Voyager 1 e 2, os Golden Records (Discos de Ouro) são os “embaixadores” mais distantes da nossa civilização. Eles não são apenas objetos de metal, mas a tentativa mais ambiciosa já feita de resumir a vida na Terra para qualquer inteligência que possa vir a encontrá-los em um futuro remoto.
O que contém os discos dourados?

A curadoria foi liderada pelo famoso — infelizmente já falecido — astrônomo Carl Sagan, da Universidade Cornell, no estado de Nova York, Estados Unidos. A equipe selecionou com extremo cuidado dados que representassem a diversidade biológica e cultural do nosso planeta.
Cada disco é feito de cobre banhado a ouro e protegido por uma capa de alumínio que contém uma pequena amostra do isótopo Urânio-238, utilizada como referência temporal baseada em seu decaimento radioativo, permitindo que um eventual descobridor estime há quanto tempo o objeto foi produzido.
O conteúdo analógico inclui:
- 116 imagens: Diagramas científicos, anatomia humana, paisagens terrestres e cenas do cotidiano, como pessoas se alimentando e crianças brincando.
- Saudações em 55 línguas: Começando pelo sumério, uma das línguas escritas mais antigas conhecidas, e terminando com o dialeto chinês Wu.
- Sons da Terra: O barulho do trovão, o canto das baleias, o som de um beijo, batimentos cardíacos e até o registro das ondas cerebrais de Ann Druyan, uma das idealizadoras do projeto, enquanto refletia sobre o amor e a experiência humana.
- Cerca de 90 minutos de música: Uma seleção que vai de Bach e Mozart ao rock de Chuck Berry, com “Johnny B. Goode”.
Comunicação universal
Como explicar a um alienígena como reproduzir um disco? Pois bem, a capa do Golden Record é um triunfo do design da informação. Ela traz diagramas baseados em constantes físicas universais — como a transição hiperfina do átomo de hidrogênio — para indicar a velocidade de rotação do disco e o processo de conversão dos sinais em imagens e sons.
Além disso, o disco contém um Mapa de Pulsares, que utiliza 14 pulsares — estrelas de nêutrons que emitem sinais extremamente regulares — como pontos de referência para localizar o Sol na Via Láctea.
Onde eles estão agora?
Atualmente, as duas Voyagers são os objetos construídos pelo ser humano mais distantes da Terra. A Voyager 1 está a aproximadamente 24 bilhões de quilômetros, enquanto a Voyager 2 se encontra a cerca de 20 bilhões de quilômetros, ambas já no espaço interestelar.
Com o passar do tempo, muitos de seus instrumentos científicos foram desligados para economizar energia, mas os discos de ouro devem permanecer legíveis por pelo menos um bilhão de anos, vagando silenciosamente pelo cosmos.
Um espelho para nós mesmos
Embora a probabilidade de uma civilização extraterrestre encontrar esses discos seja estatisticamente ínfima, Carl Sagan sempre ressaltou que o objetivo principal do projeto era simbólico.
O disco de ouro funciona como uma mensagem para nós mesmos: um lembrete de que, apesar de nossas divisões, compartilhamos um único lar e uma única história sonora. Se algum dia o Sol se apagar e a Terra deixar de existir, nossa música, nossas saudações e o som do vento soprando em Goiás — e em todo o mundo — ainda estarão viajando pelo espaço, aguardando um ouvinte.









