Três candidatos de Goiás nas eleições de 2026 declararam à Justiça Eleitoral patrimônio superior a R$ 500 mil e aparecem, ao mesmo tempo, em bases de beneficiários de programas sociais do governo federal. Os dados foram identificados em levantamento realizado pelo jornal Estadão, que cruzou informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com registros de pagamentos do Bolsa Família, do Gás do Povo e de programas anteriores, como o Auxílio Brasil e o Auxílio Emergencial.
Entre os goianos identificados estão Sérgio Francisco (DC), candidato a deputado estadual; Talita Lemke (PDT), que disputa uma vaga na Câmara dos Deputados; e Adão Alves da Silva (PSB), também candidato a deputado estadual.
O levantamento analisou os dados de 20.607 candidatos registrados para as eleições de 2026. Ao todo, foram identificados 492 candidatos que receberam Bolsa Família e outros 285 que aparecem como beneficiários do Gás do Povo. Entre eles, três declararam patrimônio de pelo menos R$ 1 milhão e outros sete informaram bens superiores a R$ 500 mil.
Candidatos goianos
O maior patrimônio entre os candidatos de Goiás apontados no levantamento é o de Sérgio Francisco. Candidato a deputado estadual, ele declarou R$ 1,2 milhão em bens ao TSE, incluindo imóveis, terrenos e veículos.
Segundo os dados analisados pelo Estadão, Sérgio recebeu R$ 24 mil do Bolsa Família e do Auxílio Emergencial em diferentes períodos. Os pagamentos ocorreram entre abril e dezembro de 2020 e, posteriormente, entre outubro de 2023 e junho de 2026.
Ao jornal, o candidato afirmou que já solicitou a baixa do Bolsa Família. Ele também explicou que parte dos bens declarados corresponde a dois lotes adquiridos de forma parcelada e relatou ter enfrentado dificuldades financeiras após sofrer um acidente.
A segunda candidata identificada foi Talita Lemke, do PDT. Ela declarou patrimônio de R$ 1,09 milhão, composto principalmente por uma propriedade rural avaliada em R$ 1 milhão e dois veículos que, juntos, foram declarados por R$ 91 mil.
De acordo com o levantamento, Talita recebeu R$ 34,5 mil do Bolsa Família e dos auxílios Brasil e Emergencial entre março de 2020 e junho de 2026.
Em resposta ao Estadão, a candidata afirmou que é pequena produtora rural e que a propriedade onde mora com a família foi herdada dos pais. Segundo ela, a família não possui renda fixa e complementa os ganhos com atividades rurais e trabalhos realizados pelo marido em propriedades vizinhas.
Já Adão Alves da Silva, do PSB, declarou R$ 545 mil em patrimônio à Justiça Eleitoral. Conforme o levantamento, ele recebeu R$ 38,2 mil do Bolsa Família em diferentes períodos desde abril de 2020.
O candidato não respondeu aos questionamentos enviados pelo Estadão antes da publicação da reportagem.
Patrimônio não impede automaticamente acesso ao Bolsa Família
Apesar dos dados, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) esclareceu que não existe uma regra que estabeleça um limite de patrimônio para que uma pessoa possa receber o Bolsa Família.
O principal critério para participação no programa é a renda familiar. Atualmente, o benefício é destinado a famílias com renda mensal por pessoa de até R$ 218. No caso do Gás do Povo, o limite é de até meio salário mínimo por pessoa, além da necessidade de manter as informações atualizadas no Cadastro Único.
O ministério informou, porém, que os dados patrimoniais podem ser utilizados no cruzamento de informações para identificar possíveis inconsistências cadastrais ou indícios de subdeclaração de renda.
O governo afirmou que os casos apontados pelo levantamento estão sendo apurados. Caso sejam confirmadas irregularidades, os pagamentos podem ser interrompidos, e os beneficiários podem ser obrigados a devolver os valores recebidos. Também há possibilidade de impedimento para receber o Bolsa Família por cinco anos.
O próprio Estadão ressaltou que aparecer na base de beneficiários de programas sociais não significa, por si só, que o candidato tenha cometido alguma irregularidade. A situação depende da análise da renda familiar, das informações registradas no Cadastro Único e das demais condições consideradas pelo governo para a concessão dos benefícios.
