A minha Goiânia vai da ponta de baixo do coração até o alto da memória, bem do lado da imaginação, logo acima das nuvens da alma da felicidade.
A minha Goiânia tem buracos nas ruas, tem avenidas inundadas nas chuvas, uns sinaleiros que de repente desorientam, mudos na cor, e carro sem seta. Carro sem seta é mato, nessa cidade.
E tem os cafés, os restaurantes, o pitdog, o Parque Mutirama, o Serra Dourada, a Estação Ferroviária, a Praça Cívica e a Praça Universitária, palco das Diretas Já. Tem você. Tem eu. Tem nós que desatamos.
A minha Goiânia não para de me surpreender. Não me impede de sonhar. Eu pisco e ela se revela nova, ainda que seja a mesma verde paisagem da natureza. Agora, com árvores envelhecidas, caídas, e novas brotando no asfalto. Idade do renascimento.
A minha Goiânia me acolhe de corpo e alma desde o amanhecer, com sol prometendo o fim do mundo, mas à noite me põe nos bares, nos lares, nos lugares onde revejo os amigos e toco meu violão sob os luares do ser-tão.
A minha Goiânia tem memória de família do interior do Estado. Vim de lá pra me fazer aqui. Meus tios chegaram primeiro, saídos de uma pequena cidade dos cafundós. Meu avô veio pra vender seus ralos de fazer pamonha e varas de ferrão na feira, bem ali na Campininha.
A minha Goiânia me viu andar alegre pelo centro, de bar em bar, e na Tamandaré. Havia esse tempo. Até hoje a esperança me espera chegar no ponto de ônibus, pra gente ir de mãos dadas ao Cine Ouro tomar café e olhar, depois do pastel de carne com caldo de cana, ali ao lado.
A minha Goiânia é uma cidade que floresce na vertical contra a minha vontade. Uma cidade que se ergue concretamente, inevitável. Toda hora vem pra cá mais um ou dois, famílias inteiras, gente que não acaba mais.
Todo mundo vem trabalhar, e em busca de morada na linha do tempo. Gente boa do Maranhão, do Pará, do Tocantins, do Sul, de São Paulo. Bem-vindos que são, ir embora torna-se impossível. Goiânia é chegada sem saída voluntária.
A minha Goiânia me irrita quando uma rua é fechada. Quando falta energia, ou a água acaba. Me contraria por ter ficado grande demais. Cadê aquela cidade gigante, com jeito de pequena, que me recebeu e me viu crescer sem trégua?
Goiânia cabe na alma nossa como água de bica no calabouço. Como planta colhida nas ruas, praças e quintais. Goiânia é a sua História. E é também a minha. Tem começo, mas não tem fim. Com amor.
