A expansão da mineração de terras raras em Goiás tem provocado preocupação entre organizações ambientalistas, principalmente em áreas próximas à Chapada dos Veadeiros e ao território quilombola Kalunga. A região é alvo de centenas de processos minerários para pesquisa e exploração de diferentes substâncias, incluindo minerais considerados estratégicos para a indústria e para a transição energética.
Levantamento da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad) aponta que existem 496 processos minerários registrados na Agência Nacional de Mineração (ANM) dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) de Pouso Alto. Juntos, os processos abrangem cerca de 527 mil hectares, área equivalente a mais de três vezes o tamanho do município de São Paulo.
Do total, pelo menos 131 processos estão relacionados a minerais críticos. Entre eles, 31 envolvem terras raras e cassiterita, enquanto outros 98 têm como alvo o manganês. Também há projetos relacionados ao níquel, outro mineral considerado estratégico internacionalmente.
Por que as terras raras são tão importantes?
As terras raras correspondem a um grupo de 17 elementos químicos utilizados em produtos e equipamentos de alta tecnologia. Eles estão presentes, por exemplo, na fabricação de ímãs para turbinas eólicas, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e tecnologias aeroespaciais e de defesa.
O interesse internacional por esses minerais aumentou nos últimos anos devido à concentração da cadeia de produção na China e à busca de outros países por fontes alternativas. O Brasil possui uma das maiores reservas mundiais de terras raras, o que colocou áreas como Goiás no radar de investidores e governos estrangeiros.
Em Goiás, a mina Serra Verde, localizada em Minaçu, ganhou destaque internacional por explorar terras raras a partir de depósitos de argila iônica. O empreendimento é atualmente considerado estratégico para ampliar a oferta desses minerais fora da China.
Ambientalistas temem impactos na Chapada dos Veadeiros
Apesar do potencial econômico das terras raras, organizações ambientais questionam a possibilidade de ampliação da atividade minerária em áreas ambientalmente sensíveis.
A APA de Pouso Alto funciona como uma área de proteção no entorno do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e abriga nascentes, cursos d’água, áreas de Cerrado preservado e comunidades tradicionais.
A preocupação aumentou diante da revisão do plano de manejo da unidade. O documento estabelece as regras para utilização do território e define quais atividades podem ser realizadas na área. A discussão sobre a possibilidade de mineração dentro da APA passou a integrar esse processo.
Entidades ambientalistas defendem que qualquer mudança nas regras seja acompanhada de estudos técnicos, transparência e participação efetiva das comunidades que vivem na região.
O Instituto Veadeiros, por exemplo, manifestou preocupação com as discussões relacionadas à mineração e cobrou maior transparência no processo de revisão do plano de manejo. A organização argumenta que decisões sobre a região podem produzir efeitos sobre a conservação ambiental e sobre as populações tradicionais.
Território Kalunga também está no debate
Outro ponto de atenção é a proximidade dos projetos minerários com o território quilombola Kalunga, uma das principais comunidades tradicionais do Cerrado brasileiro.
Os processos relacionados a minerais críticos alcançam áreas próximas a municípios como Alto Paraíso de Goiás e Cavalcante, além do distrito de São Jorge e regiões ocupadas por comunidades Kalunga. Segundo levantamento citado pelo Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União, os projetos de minerais críticos na região abrangem aproximadamente 184,8 mil hectares, o equivalente a cerca de 35% da área total requerida nos processos analisados.
A possibilidade de avanço da mineração gera preocupação porque a região concentra não apenas biodiversidade, mas também atividades econômicas ligadas ao turismo e modos de vida de comunidades tradicionais.
Governo defende discussão com a população
O Governo de Goiás afirma que a existência de processos registrados na ANM não significa que a mineração esteja autorizada nessas áreas.
De acordo com a Semad, cada empreendimento precisa passar pelos procedimentos legais e pelo licenciamento ambiental correspondente. A secretaria também sustenta que a discussão sobre a atividade na APA deve ocorrer com participação da população e dos setores envolvidos.
A discussão ocorre em um momento de expansão da política estadual voltada aos chamados minerais críticos. Em 2025, Goiás criou uma estrutura específica para tratar do setor e um fundo destinado a estimular atividades relacionadas a esses recursos.
Disputa internacional aumenta pressão sobre minerais estratégicos
O interesse pela mineração em Goiás também está relacionado à disputa internacional pelo controle de minerais considerados essenciais para tecnologias de alto valor agregado.
Em 2026, o governo de Goiás assinou um memorando de entendimento relacionado a minerais críticos com os Estados Unidos. O movimento ocorreu em meio à tentativa norte-americana de reduzir a dependência da China na cadeia de fornecimento de terras raras e outros minerais estratégicos.
No mesmo contexto, a empresa norte-americana USA Rare Earth adquiriu a mineradora Serra Verde, responsável pelo projeto de terras raras em Minaçu, em uma operação avaliada em US$ 2,8 bilhões.
O cenário coloca Goiás em uma posição estratégica no mercado internacional, mas também amplia o debate sobre como conciliar desenvolvimento econômico, exploração mineral, preservação ambiental e proteção de comunidades tradicionais.
