Pesquisas eleitorais não preveem resultados. Elas registram, com margem de erro conhecida, o estado da opinião pública durante o período de coleta. São fotografias de um momento específico, mais precisamente, de uma intenção de voto capturada em dias passados.
Dido isso, a comparação entre as rodadas de abril e julho da empresa Quaest permite descrever o que ocorreria em cada uma /dessas fotografias ou, no máximo o que ocorreu entre elas. Dito isso, não aqui há a menor intenção de transformar esse registro rápido em prognóstico sobre o futuro.
Trago esses dados para, somente, esboçar uma ideia “boa para pensar” como a desmobilização do campo progressista, até agora, contribui na construção de um pleito de turno único. E, como esse retrato mostra como um pleito jogado exclusivamente, com jogadores competitivos do campo conservador, impacta nos demais níveis, local e nacional, das disputas no campo progressista.
Governo: de uma disputa entre campos para uma competição assimétrica
Tabela 1. Comparação dos cenários estimulados de abril e julho da empresa Quaest para o Governo de Goiás.
| Candidato/segmento | Abril | Julho | Variação | |
| Campo Conservador | Daniel Vilela | 33% | 37% | +4 |
| Marconi Perillo | 21% | 21% | 0 | |
| Wilder Morais | 9% | 11% | +2 | |
| Campo Progressista | Adriana Accorsi | 10% | — | — |
| Edward Madureira | 5% | — | — | |
| Cíntia Dias | 5% | 1% | −4 | |
| Luis Cesar | — | 3% | +3 | |
| Indecisos | 15% | 20% | +5 | |
| Branco/Nulo | 12% | 7% | −5 | |
Fonte: Relatórios – Quaest Pesquisa, 2026.
Em abril, apenas o cenário com Adriana Accorsi preservava um polo progressista minimamente competitivo: ela aparecia com 10%, em terceiro lugar, em empate técnico com Wilder Morais. Naquela fotografia, havia melhores condições para a ocorrência de segundo turno. Nos demais cenários de abril, com Edward Madureira ou Cíntia Dias, o campo não alcançava densidade equivalente. Na fotografia de julho, Daniel Vilela chega a 37%, Marconi Perillo permanece com 21% e Wilder Morais atinge 11%. Luis Cesar registra 3% e Cíntia Dias 1%.
Considerando os votos válidos da atual rodada, Daniel superava a metade dos votos: neste momento, não haveria segundo turno. Isso não prevê o resultado de outubro; somente descreve objetivamente a configuração registrada pela pesquisa nesse momento já passado de coleta de dados.
O aspecto central é a assimetria: os três principais candidatos pertencem ao mesmo espaço (conservador direitista), os eleitores desse campo, até aqui, que já definiram Daniel como preferência dominante. Ao mesmo tempo, o conjunto de indecisos, brancos e nulos permanece em 27%, mas com mudança interna: a indecisão sobe de 15% para 20% e brancos e nulos 12% para 7%. A perda de densidade progressista não foi inteiramente absorvida pelos candidatos competitivos; parte do eleitorado segue sem encontrar uma alternativa capaz de produzir engajamento.
Senado: liderança relativa e segunda cadeira aberta
Tabela 2. Dois votos para o Senado consolidados e reduzidos à base de 100%.
| Candidaturas | Abril | Julho | Variação |
| Gracinha Caiado | 22% | 20% | −2 |
| Vanderlan Cardoso | 12% | 10% | −2 |
| Zacharias Calil | 11% | 9% | −2 |
| Gustavo Gayer | 10% | 9% | −1 |
| Gustavo Mendanha | — | 6% | — |
| Brancos/Nulos | 12% | 12% | 0 |
| Indecisos | 16% | 31% | +15 |
Fonte: Relatórios – Quaest Pesquisa, 2026.
A líder¸ Gracinha Caiado, permanece próxima de 20% das intenções de voto. O dado mais expressivo, mesmo com a entrada de Gustavo Mendanha na cartela de julho, é o salto da indecisão de 16% para 31%.
O eleitor parece não ter encontrado ainda uma razão suficientemente forte para ocupar o segundo voto. Mais do que ausência de nomes, há um problema de estruturação das escolhas. Portanto, há liderança, mas o recuo das intenções de voto de todos, e o aumento de 15% na indecisão e com 61% dizendo que o voto ainda pode mudar, dificulta qualquer analista a dizer que há uma cadeira consolidada.
Só para continuar olhando para o passado, volto um pouco mais no tempo. Esse patamar da líder é semelhante, para não dizer idêntico, ao alcançado pelo candidato derrotado na eleição de 2022: Marconi Perillo (19,8%). Além disso, esse resultado daria a Marconi uma vantagem de, pelo menos, dez pontos sobre o bloco de candidatos tecnicamente empatados na disputa pela segunda vaga: Vanderlan Cardoso (10%), Zacharias Calil (9%), Gustavo Gayer (9%) e Gustavo Mendanha (6%). Os seis candidatos progressistas (Aldo Arantes/PCdoB, Humberto Chaves/PSOL, Professor Marcelo Moreira/PSOL, Carlos Mundim/PDT, Iure Castro/Cidadania e Ricardo Dias/PV) somam, juntos, 3%. Ponto.
A evidência histórica: a campanha estadual organiza o campo
A série histórica de 2002 a 2022, apresentada a seguir, mostra que a votação presidencial da principal força do campo progressista no Estado, do PT em Goiás, sempre esteve relativamente desacoplada do desempenho das candidaturas ao Governo. Assim, as votações para deputado federal e estadual acompanharam muito mais de perto a força (via de regra, da fraqueza dessas candidaturas) – das candidaturas ao governo estadual.
As melhores taxas de transferência ocorreram quando o campo progressista apresentou nomes ao Governo acima de dois dígitos (Marina em 2002 e Gomide em 2011). Em 2022, embora Lula tenha obtido sua maior votação no estado, a taxa de transferência para as chapas proporcionais foi a menor da série. O outline (2010) é o apoio do PT a candidatura de Iris Rezende ao Governo do Estado. Um histórico líder conversador do Estado.
Figuras 1 e 2. Votações do PT, voto de legenda e taxa de transferência para as chapas proporcionais em Goiás, 2002–2022. Fonte: elaboração do autor com dados do TSE.

A correlação apresentada na figura 2 não deve ser lida como demonstração causal, mas como reforço visual de um padrão: o volume de votos presidenciais, isoladamente, não garante tração para as demais disputas. A candidatura ao Governo parece cumprir uma função de coordenação territorial e política. Na série local, essa tração só apareceu de forma mais consistente quando o candidato progressista ao Executivo estadual alcançou pelo menos 10%.
O risco sistêmico da desmobilização
A série histórica construída com dados do TSE e as fotografias da Quaest (Abril/Julho) apontam para a mesma preocupação. Em Goiás, uma candidatura progressista competitiva ao Governo não serve apenas para disputar o Palácio das Esmeraldas. Ela articula a campanha presidencial com as eleições para Senado, Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa, produzindo presença territorial, palanque, militância e estímulo ao comparecimento.
Sem essa candidatura, o campo progressista corre o risco de entrar na eleição com uma campanha presidencial descasada das disputas estaduais e proporcionais. Em um cenário no qual Ronaldo Caiado também concorre à Presidência e três candidaturas de direita e centro-direita concentram a competição estadual, o comparecimento tende a ser puxado por esse campo. Eleitor não chega à urna por gravidade: precisa ser mobilizado por uma campanha local forte, competitiva e territorialmente organizada.
A principal notícia da série da Quaest, portanto, não é apenas a liderança de Daniel Vilela ou de Gracinha Caiado. É a crescente assimetria entre os campos. De um lado, à direita já organizou as preferências, estruturas e expectativas de vitória. De outro, à esquerda ainda não apresentou uma candidatura estadual capaz de ultrapassar o limiar que, historicamente, produziu tração entre a eleição presidencial e as demais disputas. Nas fotografias atuais, esse é o maior risco para o campo progressista em 2026.
