Vamos refletir para não perder a ternura.
Jogo é jogo, guerra é guerra, interesse público é um negócio à parte.
Davi Alcolumbre fez jogo duro no Senado contra nomeação de Jorge Messias para o STF e venceu Lula, que perdeu um ministro para o futuro e perdeu uma marca histórica: em 132 anos, nunca um indicado tinha sido desaprovado.
O jogo é também guerra porque, para muito além do balé de alianças, apoios ganhos e perdidos e traições à esquerda e à direita, tem o elemento eleição no horizonte. Em outubro, ou Lula lá, ou Lula cai.
O chumbo trocado foi de matar. Nesses termos, vence o melhor. Mas há que se considerar que política é perde e ganha reincidente. Ora um, ora outro. Perde-se batalhas. As guerras continuam. Lula perdeu, não está perdido. Alcolumbre ganhou, não eliminou o inimigo, que está à espreita.
Por este lado, política é algo divertido de se ver. Há lances mirabolantes, como as alianças esdrúxulas – Alexandre de Moraes e Flávio Bolsonaro no mesmo time? -, e há sempre a torcida organizada comendo pipoca enquanto os inimigos se devoram no campo minado.
Ainda há literatura nessa rilia – como diria aquele velho lá de São Miguel do Passa Quatro e região. Jogos vorazes. Teoria dos jogos. Guerra e Paz. Ninguém escreve ao coronel. Da Guerra. Grande Sertão com suas veredas. Tudo ilumina e tudo conta nas linhas adversárias e nas entrelinhas.
Há literatura que versa sobre os fundamentos e petardos atirados dos bastidores que levaram à derrota lulista. Há literatura que explique que o mais emocionante agora não está mais no que aconteceu, e sim no que vai acontecer. No que vem lá. Sempre haverá algo de novo no front. Lula não foi abatido. Foi driblado. O resto é história. Será.
O que jamais pode ser perdido de vista é que está vem a ser uma perspectiva dos fatos. Não a única. Jogo é jogo, guerra e guerra. A outra visão da humanidade é que os interesses em disputa nem sempre são os seus. Parecem. São listrados como tais. Mas a verdade é outra. Não se diz que é a verdade a primeira vítima no campo aberto de uma batalha? Os fins. E os meios.
Alcolumbre não lutou pelo bem das pessoas. Lula não escolheu o povo ao escolher Jorge Messias. E estamos combinados. Nós os elegemos – cada um com seu voto na urna – e eles tem legitimidade para inclusive trair nossos interesses em nome de seus interesses pessoais. Isso é democracia. O troco damos nas urnas. Pelo menos deveríamos dar.
Coloco a questão na primeira pessoa do plural para deixar claro que há sempre outra guerra sendo travada, outro jogo em curso: eles contra nós. Como se elegêssemos políticos para que depois os combatamos. Uma coisa maluca, eu sei. Mas é assim, é a isso damos – nós, conscientes ou não, em livros ou da boca pra fora – o nome de política.
Nós legitimamos as ações contra nós. Deveria ser o contrário. Na teoria, é o contrário. Na prática, porém, a realidade desmancha o discurso. Uma bomba atômica na realidade. Um cogumelo subindo pela consciência, ainda que inconscientemente (nem sempre, porque forma legião os que sabem muito bem o que estão fazendo, e mesmo assim fazem).
Alcolumbre nos representa. Lula nos representa. Durmamos com um barulho desse. Quer dizer que eles guerrearem entre si, se engalfinharem por razões muito particulares deles, tem nosso aval. Ao mesmo tempo, é lastimável que façam isso e não o que deveriam, por princípio constitucional e tudo que se traduz como valores e princípios humanos. Uma contradição desumana, eu diria.
A desilusão com a política talvez tenha campo fértil nessa terra sem lei do descompasso entre a legitimidade do jogo e da guerra, ante a indignidade dos interesses que realmente importam na hora do vamos ver. O que vemos. E tudo validado pelo voto. Pelo eleitor, que age na urna, pouco reage nas ruas e volta a cometer os crimes de sempre na repetição do direito de votar.
Votar, voto: mas como vota? Como vota mal… ou bem, se preferem considerar assim. To falando de nós. Que fique bem claro. Me incluo nessa. O pecado é público e cometido em privado, na cabine de votação. Um pecado que é arma de guerra, de jogo, de poder coletivo, mas que funciona como granada sem pino jogada pra cima da cabeça. Olha o que vai acontecer.
Lula e Alcolumbre estão se matando pra se manterem vivos Na política. Nós… Nós estamos nos matando. Ponto. E muitos estão se matando por eles, o que torna tudo mais engraçado ainda. Evitei até aqui usar a palavra paradoxo. Não evito mais. Tá lançada a bala. Nós e o nó. Pensa num trocadilho explosivo.
A política brasileira é um paradoxo cuja única solução é o riso. Rir para não chorar. Chorar é para os fracos e perdedores confessos e acomodados.
A luta continua, cidadão. Guerra é guerra. Jogo é ilusão.
